ARTIGO ORIGINAL
Efeitos da Fisioterapia Aquática em indivíduos com ansiedade e insônia: Estudo piloto
Effects of Aquatic Physiotherapy in individuals with anxiety and insomnia: A pilot study
Camille Eduarda Santos Lisboa1, Sandro Júnio Assunção Amazonas1, Gabriel de Oliveira Vale1, Gustavo Antônio Tavares Picanço1, Andiara de Cássia Ribeiro Simões1, Ígor Alves Chalkidis1, Mariana dos Anjos Furtado de Sá1, Átila Barros Magalhães1
1Universidade do Estado do Pará (UEPA), Santarém, PA, Brasil
Recebido em: 8 de Maio de 2026; Aceito em: 10 de Junho de 2026.
Correspondência: Camille Eduarda Santos Lisboa, camillelisboa81@gmail.com
Como citar
Lisboa CES, Amazonas SJA, Vale GO, Picanço GAT, Simões ACR, Chalkidis IA, Sá MAF, Magalhães AB. Efeitos da Fisioterapia Aquática em indivíduos com ansiedade e insônia: Estudo piloto. Fisioter Bras. 2026;27(4):3685-2978 doi: 10.62827/fb.v27i4.1201.
Introdução: A ansiedade e a insônia podem coexistir e comprometer o funcionamento diário. Intervenções aquáticas associam movimentos lentos, respiração e relaxamento, mas suas evidências clínicas ainda são limitadas. Objetivo: Avaliar as alterações nos sintomas de ansiedade e na qualidade do sono após um protocolo de fisioterapia aquática com Ai Chi e Watsu. Métodos: Estudo piloto de intervenção, com avaliação antes e após, sem grupo controle. Adultos de 18 a 45 anos com diagnóstico médico de transtorno de ansiedade e queixa recorrente de insônia realizaram dez sessões intercaladas de Ai Chi e Watsu entre fevereiro e maio de 2024. Foram aplicadas a Escala de Ansiedade de Hamilton e o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh. Resultados: Nove participantes concluíram o protocolo. A média da ansiedade reduziu de 38,3 para 11,4 pontos, e a média do sono reduziu de 14,3 para 8,3 pontos. Após a intervenção, quatro participantes foram classificados sem ansiedade, três com ansiedade leve e dois com ansiedade moderada; nenhum permaneceu na categoria grave. Dois participantes atingiram escore compatível com boa qualidade do sono. Conclusão: O protocolo foi associado à redução descritiva dos escores de ansiedade e à melhora dos escores de qualidade do sono. Por se tratar de estudo piloto, sem grupo controle e com amostra reduzida, os achados devem ser interpretados como preliminares.
Palavras-chave: Hidroterapia; Saúde Mental; Transtornos de Ansiedade; Transtornos do Sono-Vigília; Modalidades de Fisioterapia.
Introduction: Anxiety and insomnia may coexist and impair daily functioning. Aquatic interventions combine slow movements, breathing, and relaxation, but their clinical evidence remains limited. Objective: To evaluate changes in anxiety symptoms and sleep quality after an aquatic physiotherapy protocol using Ai Chi and Watsu. Methods: This was a single-group pilot intervention study with before-and-after assessment and no control group. Adults aged 18 to 45 years with a medical diagnosis of anxiety disorder and recurrent insomnia complaints completed ten alternating Ai Chi and Watsu sessions between February and May 2024. The Hamilton Anxiety Rating Scale and the Pittsburgh Sleep Quality Index were applied. Results: Nine participants completed the protocol. The mean anxiety score decreased from 38.3 to 11.4 points, and the mean sleep score decreased from 14.3 to 8.3 points. After the intervention, four participants were classified as having no anxiety, three as having mild anxiety, and two as having moderate anxiety; none remained in the severe category. Two participants reached scores compatible with good sleep quality. Conclusion: The protocol was associated with descriptive reductions in anxiety scores and improved sleep-quality scores. Because this was a small pilot study without a control group, the findings should be interpreted as preliminary.
Keywords: Hydrotherapy; Mental Health; Anxiety Disorders; Sleep Wake Disorders; Physical Therapy Modalities.
Os transtornos de ansiedade são caracterizados por apreensão, medo antecipatório, preocupação persistente e manifestações psicológicas e fisiológicas que podem comprometer o funcionamento cotidiano e a qualidade de vida. Quando intensos, esses sintomas interferem nas relações sociais, no desempenho profissional ou acadêmico e na capacidade de lidar com situações rotineiras [1].
As manifestações ansiosas são descritas desde a Antiguidade. Na Grécia do século VIII a.C., a obra Ilíada já apresentava relatos compatíveis com medo e angústia. Ao longo do tempo, a compreensão da ansiedade deixou de se apoiar em explicações místicas e passou a incorporar critérios clínicos, modelos psicopatológicos e intervenções fundamentadas em evidências [2].
A ansiedade pode constituir uma resposta adaptativa diante de situações de ameaça. Entretanto, torna-se patológica quando é excessiva, persistente e desproporcional ao estímulo, com repercussões no funcionamento social, intelectual e emocional. O sono está entre os domínios frequentemente afetados, pois a hiperativação cognitiva e fisiológica dificulta o início e a manutenção do sono e reduz sua capacidade restauradora [3].
O manejo dos transtornos de ansiedade pode envolver tratamento farmacológico e intervenções não farmacológicas. Os ansiolíticos são utilizados para o controle dos sintomas, enquanto a terapia cognitivo-comportamental atua sobre padrões de pensamento, respostas comportamentais e estratégias de enfrentamento. Técnicas de relaxamento corporal integradas a essa abordagem também podem reduzir a tensão e favorecer a autoeficácia do paciente [4].
Práticas corporais não invasivas também têm sido investigadas como recursos complementares. O Hatha Yoga, por exemplo, associa exercícios respiratórios, posturas, meditação e relaxamento profundo, com o objetivo de favorecer o equilíbrio físico e emocional. Essas estratégias reforçam a relevância de intervenções que integrem respiração, consciência corporal e redução da ativação fisiológica [5].
Apesar da utilização crescente dessas abordagens, o acesso a intervenções não farmacológicas ainda é limitado em diferentes contextos assistenciais, e permanecem lacunas sobre seus efeitos em pessoas com ansiedade associada à insônia. A insônia caracteriza-se pela dificuldade recorrente para iniciar, manter ou consolidar o sono, com repercussões sobre disposição, atenção, humor e desempenho nas atividades diárias. Nesse contexto, intervenções fisioterapêuticas podem complementar o tratamento habitual e contribuir para o controle dos sintomas, sem substituir o acompanhamento médico e psicológico [6].
A fisioterapia aquática utiliza as propriedades físicas e térmicas da água para facilitar movimentos, reduzir sobrecargas corporais e promover relaxamento. Entre os recursos empregados, o Ai Chi combina movimentos lentos e amplos com respiração controlada em água aquecida, enquanto o Watsu utiliza mobilizações passivas, flutuação e condução terapêutica do corpo. Essas técnicas podem favorecer relaxamento físico e mental, alívio de tensões, melhora do equilíbrio e maior percepção de bem-estar [7].
Diante da relação entre ansiedade, hiperativação fisiológica e alterações do sono, torna-se pertinente investigar intervenções aquáticas que associem movimento, respiração e relaxamento. Assim, este estudo teve como objetivo avaliar as alterações nos sintomas de ansiedade e na qualidade do sono após um protocolo de fisioterapia aquática com os métodos Ai Chi e Watsu em adultos residentes no oeste do Pará.
Trata-se de estudo piloto de intervenção, de braço único, com abordagem quantitativa e avaliação antes e após o protocolo terapêutico [8]. A pesquisa foi realizada no ambulatório e na piscina de hidroterapia da Universidade do Estado do Pará, Campus XII, em Santarém, Pará, entre fevereiro e maio de 2024. A duração do estudo foi condicionada à disponibilidade compartilhada da piscina terapêutica.
A amostra foi selecionada por conveniência. Foram avaliados 31 interessados; 19 foram excluídos por não atendimento aos critérios de inclusão, ausência de laudo médico confirmando o transtorno de ansiedade ou incompatibilidade de horários. Doze participantes iniciaram o protocolo, três desistiram por incompatibilidade de horários e nove concluíram todas as etapas.
Foram incluídos adultos de 18 a 45 anos, com diagnóstico médico de transtorno de ansiedade, queixa recorrente de insônia e disponibilidade para participar das sessões. Os participantes mantiveram os tratamentos habituais durante o estudo.
Foram excluídos indivíduos com contraindicação para atividades em meio aquático, incluindo alergia a produtos químicos da piscina, doenças dermatológicas, fobia de água ou desconforto com toque físico na Figura 1.

Figura 1 – Fluxo de recrutamento, acompanhamento e análise dos participantes.
A Escala de Ansiedade de Hamilton contém 14 itens que avaliam sintomas psíquicos e somáticos. Cada item varia de 0 a 4 pontos, com escore total de 0 a 56. Neste estudo, escores de 0 a 9 indicaram ausência de ansiedade; de 10 a 15, ansiedade leve; de 16 a 25, ansiedade moderada; e iguais ou superiores a 26, ansiedade grave [9].
O Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh avalia, nos 30 dias anteriores, qualidade subjetiva, latência, duração, eficiência, uso de medicação e repercussões diurnas do sono. O escore total varia de 0 a 21; valores de 0 a 5 foram classificados como boa qualidade do sono e valores superiores a 5 como má qualidade do sono.
O protocolo começou com avaliação individual, anamnese e aplicação dos dois instrumentos. Em seguida, os participantes realizaram dez sessões de fisioterapia aquática: cinco com Ai Chi e cinco com Watsu, aplicadas de forma intercalada. As sessões ocorreram em ambiente fechado e reservado, duraram de 30 a 45 minutos e foram conduzidas em grupos organizados conforme a disponibilidade semanal. Cada participante recebeu um código alfanumérico para preservação da identidade.
No Ai Chi, os participantes permaneceram com a água aquecida na altura dos ombros e realizaram movimentos lentos e amplos associados à respiração. A sequência incluiu contemplando, flutuando, elevando, fechando, cruzando, acalmando, agrupando, transferindo, aceitando, circundando, aceitando com graça, balançando e sustentando. Um terapeuta permaneceu na piscina para auxiliar a execução e outro demonstrou os movimentos fora da água. Essa etapa durou aproximadamente 20 a 30 minutos.
No Watsu, o terapeuta sustentou e conduziu o corpo do participante em movimentos sequenciais na água aquecida. A sequência incluiu dança da respiração, oferecer lento, oferecer com uma perna, oferecer com duas pernas, acordeão, acordeão com rotação, liberar a coluna, segurar os portões, explorar portas 1 e 2, liberar o braço, quietude distante, algas e overgrip. As sessões duraram de 30 a 45 minutos.
Imagem 1 - Aplicação do método Watsu durante o protocolo.
Fonte: acervo da pesquisa.
Imagem 2 - Atendimento em grupo durante sessão do método Watsu.
Fonte: acervo da pesquisa.
Após a reavaliação, os participantes foram convidados a relatar suas percepções sobre a experiência em uma breve entrevista gravada em áudio, mediante autorização. Os relatos foram utilizados apenas como informação exploratória e apresentados de forma descritiva, sem análise qualitativa formal.
Os dados foram organizados no Microsoft Excel 2019 e analisados por estatística descritiva. Foram calculadas frequências absolutas e relativas, médias, variâncias e desvios-padrão dos escores antes e após a intervenção. Não foram realizados testes estatísticos inferenciais.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Pará, sob o parecer nº 6.495.158/2023, e conduzido conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A amostra final foi composta por nove participantes, quatro homens (44,4%) e cinco mulheres (55,6%), com idades entre 22 e 45 anos. Cinco participantes (55,6%) utilizavam ansiolíticos, quatro (44,4%) realizavam acompanhamento terapêutico regular e cinco (55,6%) apresentavam outra comorbidade. Quanto ao estado civil, sete eram solteiros (77,8%), um casado (11,1%) e um divorciado (11,1%).
Antes da intervenção, oito participantes (88,9%) apresentavam ansiedade grave e um (11,1%) ansiedade moderada. Todos apresentavam escore compatível com má qualidade do sono. Os escores individuais antes e após o protocolo estão apresentados no Quadro 1.
Quadro 1 – Escores individuais de ansiedade e qualidade do sono antes e após a intervenção.
|
Participante |
Ansiedade |
Ansiedade |
Sono |
Sono |
|
E202410 |
33 |
9 |
13 |
5 |
|
H202402 |
40 |
13 |
18 |
11 |
|
M202406 |
30 |
10 |
13 |
7 |
|
G202404 |
17 |
9 |
15 |
10 |
|
N202411 |
38 |
16 |
10 |
5 |
|
S202403 |
49 |
3 |
16 |
7 |
|
H202408 |
49 |
4 |
15 |
9 |
|
A202407 |
45 |
14 |
15 |
11 |
|
O202409 |
44 |
25 |
14 |
10 |
Legenda: ansiedade avaliada pela Escala de Ansiedade de Hamilton; sono avaliado pelo Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh.
Após as dez sessões, quatro participantes (44,4%) foram classificados sem ansiedade, três (33,3%) com ansiedade leve e dois (22,2%) com ansiedade moderada; nenhum permaneceu com ansiedade grave. Para a qualidade do sono, dois participantes (22,2%) atingiram escores de boa qualidade e sete (77,8%) permaneceram acima do ponto de corte, embora todos tenham apresentado redução do escore.

Figura 2 – Escores individuais de ansiedade e qualidade do sono antes e após a intervenção.
A média dos escores de ansiedade reduziu de 38,33 para 11,44 pontos, enquanto o desvio-padrão reduziu de 9,78 para 6,27. Para a qualidade do sono, a média reduziu de 14,33 para 8,33 pontos, e o desvio-padrão variou de 2,11 para 2,26. As medidas descritivas são apresentadas no Quadro 2.
Quadro 2 – Medidas descritivas dos escores de ansiedade e qualidade do sono.
|
Medida |
Ansiedade |
Ansiedade |
Sono |
Sono |
|
Média |
38,333 |
11,444 |
14,333 |
8,333 |
|
Variância |
95,555 |
39,350 |
4,444 |
5,111 |
|
Desvio-padrão |
9,775 |
6,273 |
2,108 |
2,260 |

Figura 3 - Comparação das medidas descritivas dos escores antes e após a intervenção.
Percepções dos participantes
Nos relatos espontâneos, os participantes mencionaram maior disposição para atividades cotidianas, sono percebido como mais satisfatório, melhor manejo de episódios de ansiedade com as técnicas respiratórias e sensação de tranquilidade após as sessões. Como esses relatos não foram submetidos a análise qualitativa sistemática, devem ser interpretados apenas como observações exploratórias.
Após dez sessões de Ai Chi e Watsu, foram observadas reduções descritivas nos escores de ansiedade e de má qualidade do sono. A mudança ocorreu em todos os participantes, mas a ausência de grupo controle e de análise inferencial impede atribuir causalidade ou estimar a magnitude do efeito.
Uma revisão de escopo sobre exercício aquático e saúde mental identificou benefícios potenciais sobre sintomas psicológicos, embora tenha destacado heterogeneidade de protocolos e necessidade de estudos mais robustos [10]. Em levantamento com profissionais que aplicam Watsu, a saúde mental esteve entre as áreas frequentes de utilização, e os efeitos relatados incluíram relaxamento e bem-estar [11]. Esses achados são compatíveis com a direção das mudanças observadas neste estudo.
Em ensaio clínico com idosos deprimidos, exercícios aquáticos de baixa intensidade reduziram sintomas de ansiedade e melhoraram desfechos funcionais [12]. Em gestantes, um programa de hidroterapia manteve estáveis os níveis de ansiedade e depressão, sem redução estatisticamente significativa [13]. A comparação entre esses estudos mostra que os resultados podem variar conforme população, intensidade, duração e composição do protocolo.
Revisões sobre hidroterapia em transtornos mentais e atuação fisioterapêutica descrevem benefícios relacionados a relaxamento, mobilidade, equilíbrio, dor e qualidade de vida [14,15]. Os relatos exploratórios de tranquilidade, disposição e uso das técnicas respiratórias observados no presente estudo são coerentes com essas possibilidades, mas não constituem evidência qualitativa formal.
As principais limitações foram a amostra pequena e por conveniência, ausência de grupo controle, manutenção de tratamentos concomitantes, falta de seguimento, ausência de testes inferenciais e uso combinado de Ai Chi e Watsu, o que impossibilita distinguir a contribuição de cada método. Também não houve análise qualitativa sistemática dos relatos.
Apesar dessas limitações, o estudo demonstrou a viabilidade operacional do protocolo e produziu estimativas preliminares para o planejamento de pesquisas futuras. Ensaios controlados, com amostras maiores, registro prospectivo, acompanhamento longitudinal e análise estatística adequada são necessários para avaliar eficácia e duração dos efeitos.
Após dez sessões intercaladas de Ai Chi e Watsu, os participantes apresentaram menores escores de ansiedade e de má qualidade do sono em comparação com a avaliação inicial. Os achados indicam viabilidade e possível benefício do protocolo, mas são preliminares e não permitem concluir eficácia. Estudos controlados e com maior poder amostral são necessários.
Agradecimentos
Agradecemos à Universidade do Estado do Pará, Campus XII, pelo apoio estrutural e pela disponibilidade do ambulatório e da piscina terapêutica. Agradecemos aos participantes e aos professores e profissionais do curso de Fisioterapia que colaboraram com a execução do estudo.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Financiamento
Não houve financiamento.
Contribuição dos autores
Desenho da Pesquisa: Lisboa CES, Amazonas SJA, Vale GO, Sá MAF; Obtenção de dados: Lisboa CES, Amazonas SJA, Vale GO, Picanço GAT, Simôes ACR; Redação do manuscrito: Lisboa CES, Picanço GAT, Simôes ACR, Chalkidis IA, Sá MAF; Análise e interpretação dos dados: Lisboa CES, Amazonas SJA, Vale GO, Picanço GAT; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual kmportante: Sá MAF; Magalhães AB.
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