Fisioter Bras. 2025;26(6):2913-2923
doi: 10.62827/fb.v26i6.1125

REVISÃO

Fisioterapia no manejo de disfunções do assoalho pélvico após cirurgias oncológicas: Uma revisão de literatura

Physical therapy in the management of pelvic floor dysfunction after cancer surgery: A literature review

Marcele Zago Marcolan1, Julia Torres Rocha1, Anna Flavia Vieira Pinto1, Camila Pereira Morbelli1, Maria Vitória Guerini Novaes1, Isadora Schwartz Meireles1, Virginia Modenesi1, Júlia Moreno Castro de Oliveira1

1Universidade Vila Velha (UVV), Vila Velha, ES, Brasil

Recebido em: 5 de Dezembro de 2025; Aceito em: 11 de Dezembro de 2025.

Correspondência: Marcele Zago Marcolan, zago.marcele97@gmail.com

Como citar

Marcolan MZ, Rocha JT, Pinto AFV, Morbelli CP, Novaes MVG, Meireles IS, Modenesi V, Oliveira JMC. Fisioterapia no manejo de disfunções do assoalho pélvico após cirurgias oncológicas: Uma revisão de literatura. Fisioter Bras. 2025;26(6):2913-2923. doi:10.62827/fb.v26i6.1125

Resumo

Introdução: As cirurgias oncológicas que envolvem estruturas pélvicas podem gerar sequelas funcionais importantes, como incontinência urinária, disfunções evacuatórias, dor pélvica, alterações da função sexual e perda da estabilidade do core. Essas repercussões decorrem de lesões neurais, fibroses, alterações anatômicas e fraqueza muscular decorrentes do tratamento cirúrgico, radioterápico ou combinado, exigindo intervenções fisioterapêuticas específicas para otimizar a recuperação funcional. Objetivo: Analisou-se o papel da fisioterapia no manejo das disfunções do assoalho pélvico após cirurgias oncológicas, identificando técnicas eficazes, abordagens terapêuticas e evidências sobre a reabilitação pélvica no contexto do câncer. Métodos: Esta revisão bibliográfica descritiva e analítica foi desenvolvida a partir de publicações nacionais e internacionais encontradas nas bases Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed – U.S. National Library of Medicine (PubMed) e Scopus. Foram incluídos 11 estudos publicados entre 2016 e 2025 que abordam disfunções pélvicas associadas a cirurgias oncológicas, estratégias de reabilitação fisioterapêutica e resultados clínicos relacionados à função urinária, intestinal, sexual e muscular. Resultados: Os estudos apontam que intervenções como treinamento dos músculos do assoalho pélvico, biofeedback, eletroestimulação, exercícios de coordenação e fortalecimento, técnicas manuais e educação em saúde promovem melhora significativa da continência, da dor pélvica e da função sexual. A combinação entre fisioterapia precoce, acompanhamento multidisciplinar e programas estruturados mostrou favorecer maior recuperação funcional, maior satisfação dos pacientes e redução de sequelas tardias. Evidências também indicam que protocolos individualizados, adaptação às necessidades específicas de cada tipo de cirurgia e continuidade terapêutica contribuem para melhores resultados a longo prazo. Conclusão: A fisioterapia desempenha papel fundamental no manejo das disfunções do assoalho pélvico após cirurgias oncológicas. Intervenções personalizadas e baseadas em evidências favorecem a reabilitação da continência, a melhora da dor, o restabelecimento da função sexual e a otimização da qualidade de vida dos pacientes. A integração entre avaliação precisa, recursos terapêuticos adequados e acompanhamento contínuo reafirma a importância da reabilitação pélvica como componente essencial do cuidado oncológico contemporâneo.

Palavras-chave: Distúrbios do Assoalho Pélvico; Diafragma da Pelve; Dor Pélvica.

Abstract

Introduction: Pelvic floor dysfunctions are common after oncological surgeries and may include urinary and fecal incontinence, pelvic pain, sexual dysfunction, decreased muscle strength and coordination, and significant impairment in quality of life. These changes result from surgical trauma, nerve injury, radiotherapy effects, postoperative complications, and psychosocial factors, requiring an interdisciplinary approach that integrates physical therapy, medical follow-up, and patient education to optimize functional recovery. Objective: This review analyzed the role of physical therapy in the management of pelvic floor dysfunctions following oncological surgeries, identifying effective therapeutic strategies, functional rehabilitation protocols, and mechanisms of collaborative care. Methods: TThis descriptive and analytical literature review was developed based on national and international publications found in the Virtual Health Library (VHL), the Latin American and Caribbean Health Sciences Literature (LILACS), PubMed – U.S. National Library of Medicine (PubMed), and Scopus databases. Eleven studies published between 2016 and 2025 were included, selected according to their relevance to postoperative pelvic floor dysfunctions, physiotherapeutic interventions, functional outcomes, and interdisciplinary care strategies. Results: Evidence shows that structured rehabilitation programs involving pelvic floor muscle training, manual therapy, neuromuscular reeducation, biofeedback, electrotherapy, and health education significantly improve continence, pelvic coordination, sexual function, pain levels, and overall quality of life. When combined with medical follow-up, including monitoring for postoperative complications, management of neuropathic pain, support for bowel and urinary symptoms, and individualized clinical guidance, physiotherapy demonstrates superior results in functional recovery and long-term complication prevention. Multidisciplinary programs, educational support, and continuity-of-care strategies, including telerehabilitation, proved essential for adherence, engagement, and maintenance of therapeutic gains. Conclusion: The interdisciplinary integration of physical therapy and medicine is fundamental in the management of pelvic floor dysfunctions after oncological surgeries. Evidence-based and individualized protocols that combine therapeutic exercises, continuous clinical monitoring, and biopsychosocial strategies promote functional recovery, postural stability, continence, and autonomy. This collaborative model reinforces the importance of coordinated care and patient-centered rehabilitation as essential pillars in contemporary pelvic oncology recovery.

Keywords: Pelvic Floor Disorders; Pelvic Floor; Pelvic Pain.

Introdução

As disfunções do assoalho pélvico (DAP) constituem complicações frequentes após cirurgias oncológicas pélvicas, especialmente nos tratamentos de câncer prostático, colorretal, cervical e ginecológico, e podem incluir incontinência urinária, incontinência fecal, constipação, dor pélvica e disfunção sexual [1]. Nos últimos anos, estudos demonstram que a integridade muscular, neurológica e funcional do assoalho pélvico é significativamente afetada por procedimentos como prostatectomias, histerectomias radicais, ressecções retais e tratamentos adjuvantes, refletindo em prejuízo importante da qualidade de vida [2–4]. A natureza invasiva das cirurgias e das terapias adjuvantes, embora essenciais ao controle oncológico, frequentemente resulta em alterações estruturais e funcionais que afetam diretamente o controle esfincteriano e a biomecânica pélvica [5,6].

Nesse contexto, a integração entre medicina e fisioterapia torna-se fundamental para prevenção, manejo e recuperação dessas complicações.
A medicina oncológica e cirúrgica tem papel central na avaliação pré-operatória, na definição do risco funcional, no acompanhamento pós-operatório e na identificação precoce das DAP, garantindo condutas terapêuticas direcionadas e individualizadas [7]. Paralelamente, evidências crescentes mostram que pacientes submetidos a cirurgias pélvicas apresentam redução da força dos músculos do assoalho pélvico, alterações de coordenação neuromuscular, prejuízo do controle esfincteriano e maior predisposição a distúrbios urinários e intestinais, o que demanda intervenções fisioterapêuticas específicas e estruturadas [3,8].

A fisioterapia, portanto, emerge como pilar central na reabilitação do assoalho pélvico em sobreviventes de câncer, oferecendo estratégias como treinamento muscular específico, biofeedback, eletroestimulação, terapia comportamental e programas funcionais individualizados. Ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas demonstram que essas intervenções são eficazes para reduzir a incontinência urinária após prostatectomias, melhorar o controle intestinal no pós-operatório de câncer colorretal e restaurar a função pélvica em mulheres após cirurgias ginecológicas oncológicas [1,4,7,9]. Além disso, abordagens realizadas presencialmente ou por teleatendimento têm mostrado bons resultados, ampliando o acesso e a adesão dos pacientes [3].

Estudos recentes apontam que a abordagem interdisciplinar envolvendo fisioterapeutas, cirurgiões, oncologistas, enfermeiros e equipes de reabilitação promove resultados superiores aos de intervenções isoladas, contribuindo para melhor recuperação funcional, qualidade de vida e reintegração social após o tratamento oncológico [8–10]. Programas coordenados possibilitam intervenções mais precoces, monitoramento contínuo e adaptação progressiva das estratégias terapêuticas, reduzindo sequelas de longo prazo e otimizando a reabilitação global do paciente [11].

Diante da relevância clínica e funcional das disfunções do assoalho pélvico no contexto oncológico, analisar descreveu-se as principais evidências sobre o papel da fisioterapia no manejo dessas alterações, compreender os impactos das cirurgias pélvicas sobre a função esfincteriana e muscular e destacar a importância da atuação multiprofissional para o cuidado integral e a melhor recuperação dos pacientes oncológicos.

Métodos

Trata-se de uma revisão bibliográfica de caráter descritivo e analítico, fundamentada em publicações nacionais e internacionais disponíveis nas bases Biblioteca Virtual em Saúde (BVS); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); United States National Library of Medicine (PubMed); e Scopus.

Foram incluídos artigos publicados entre 2008 e 2025, totalizando 11 estudos, selecionados com base na relevância para o manejo das disfunções do assoalho pélvico (DAP) no contexto pós-cirúrgico oncológico (incluindo prostatectomia, ressecção retal/colorectal, cirurgias ginecológicas e terapias adjuvantes), contemplando ensaios clínicos randomizados e não randomizados, revisões sistemáticas, estudos piloto e protocolos.

A questão norteadora foi elaborada segundo o protocolo PICOTT: Em pacientes submetidos a cirurgias oncológicas pélvicas (P), quais são os efeitos das intervenções fisioterapêuticas do assoalho pélvico (I), comparadas com cuidado usual ou nenhuma intervenção (C), sobre desfechos de incontinência urinária/fecal, função intestinal, dor pélvica e qualidade de vida (O), em estudos com follow-up desde o pós-operatório imediato até o seguimento tardio (T), considerando ensaios clínicos, revisões e protocolos publicados entre 2008–2025 (T).

As buscas foram realizadas utilizando Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH), selecionados conforme a questão de pesquisa: “pelvic floor”, “pelvic floor dysfunction”, “pelvic floor muscle training”, “pelvic rehabilitation”, “prostatectomy”, “rectal cancer”, “colorectal cancer”, “gynaecologic oncology”, “biofeedback”, “electrical stimulation”, “telerehabilitation”, “functional outcomes”. Para a combinação dos termos empregaram-se os operadores booleanos AND e OR, estruturando estratégias como: “pelvic floor” AND “muscle training” AND “prostatectomy”; “pelvic rehabilitation” AND (“rectal cancer” OR “colorectal cancer”); “pelvic floor dysfunction” AND (“gynaecologic oncology” OR “postoperative”) AND (“telerehabilitation” OR “biofeedback”) e “pelvic floor muscle training” AND (“randomized” OR “trial”) AND “functional outcomes”

Foram considerados para inclusão: artigos originais (ensaios clínicos randomizados e não randomizados), revisões sistemáticas e narrativas, protocolos de estudo e estudos piloto que abordassem intervenções fisioterapêuticas (treinamento de MAP, músculos do assoalho pélvico, biofeedback, eletroestimulação, programas domiciliares, telereabilitação) integradas ao manejo médico peri e pós-operatório em pacientes oncológicos pélvicos. Admitiram-se publicações em português, inglês e espanhol, desde que com texto completo disponível (preferencialmente em acesso aberto ou por repositórios institucionais).

Definiram-se como critérios de exclusão: estudos focados exclusivamente em prevenção primária sem intervenção terapêutica aplicada no pós-operatório, reabilitação de outras condições musculoesqueléticas sem relação direta com DAP oncológica, relatos de caso isolados sem discussão teórica ampliada, resumos de congresso sem texto completo e materiais duplicados entre bases.

A seleção dos estudos ocorreu em três etapas sequenciais: (1) identificação e remoção de duplicatas entre as bases; (2) leitura dos títulos e resumos para triagem inicial; (3) leitura integral dos textos elegíveis, com avaliação detalhada da metodologia, população, intervenções, comparadores e desfechos. Todo o processo de busca e triagem foi realizado de forma independente por dois revisores; divergências foram resolvidas por consenso ou por consulta a um terceiro revisor.

A análise dos dados incluiu a extração e a sistematização das informações referentes aos objetivos, delineamentos metodológicos, características amostrais (idade, tipo de câncer e cirurgia), intervenções aplicadas (componentes fisioterapêuticos, duração, modalidade presencial/telehealth e concomitância de ações médicas), principais desfechos avaliados (incontinência urinária/fecal, frequência evacuatória, dor pélvica, força de MAP, qualidade de vida) e achados principais. Os resultados foram organizados para permitir uma visão crítica e comparativa sobre eficácia, viabilidade e aplicabilidade clínica das estratégias fisioterapêuticas no contexto oncológico.

Diante dos critérios estabelecidos, as buscas identificaram 312 registros nas bases selecionadas. Após a remoção de 118 duplicatas, restaram 194 artigos para leitura de títulos e resumos. Destes, 87 foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão (tema fora do escopo, ausência de intervenção fisioterapêutica relevante, desenhos não elegíveis ou falta de texto completo). Assim, 11 artigos foram avaliados na íntegra e incluídos na revisão final.

A triagem dos estudos foi desenvolvido em 5 etapas, desde os artigos identificados até os artigos incluídos e divididos por cada base de dados, conforme ilustrado na Figura 1.

ATENÇÃO PRIMÁRIA (11)

Fonte: Os autores 2025.

Figura 1 - Fluxograma da busca de artigos selecionados para a revisão

Resultados

O Quadro 1 sintetiza os 11 estudos incluídos nesta revisão, contemplando diferentes delineamentos metodológicos, ensaios clínicos randomizados, estudos quasi-experimentais, coortes, análises transversais e revisões sistemáticas, que investigaram o impacto das cirurgias oncológicas sobre o assoalho pélvico, bem como a eficácia das intervenções fisioterapêuticas no manejo dessas disfunções.

Quadro 1 - Síntese dos estudos utilizados na construção do presente artigo

Autor/Ano

Título (traduzido)

Tipo de Estudo

Objetivo

Desfecho

Russo F, et al. (2025)

Treinamento domiciliar dos músculos do assoalho pélvico com ou sem observação de ação após prostatectomia

Ensaio clínico randomizado

Avaliar a eficácia do treinamento domiciliar dos MAP com ou sem observação de ação na incontinência pós-prostatectomia

Ambos os métodos reduziram a incontinência; a observação de ação não apresentou benefício adicional significativo

Zhou L, et al. (2024)

Aplicação da reabilitação do assoalho pélvico em pacientes com câncer colorretal

Revisão sistemática / análise

Avaliar os efeitos da reabilitação do assoalho pélvico em sintomas urinários e intestinais após cirurgia colorretal

A reabilitação mostrou melhora consistente da função intestinal e urinária no pós-operatório

Brennen R, et al. (2023)

Treinamento dos músculos do assoalho pélvico via teleatendimento para incontinência após cirurgia ginecológica oncológica

Estudo clínico / intervenção via telehealth

Avaliar a viabilidade e eficácia da reabilitação do MAP conduzida remotamente

A intervenção reduziu sintomas de incontinência e foi considerada viável e efetiva por pacientes

Li X, et al. (2023)

Eficácia dos exercícios de reabilitação do assoalho pélvico em pacientes pós-cirurgia de câncer cervical

Estudo clínico prospectivo

Investigar o efeito de exercícios de MAP na função urinária e pélvica após cirurgia cervical

Houve melhora significativa na força muscular do MAP e redução de sintomas urinários

van der Heijden JAG, et al. (2022)

Reabilitação do assoalho pélvico após cirurgia de câncer retal (FORCE Trial)

Ensaio clínico randomizado

Avaliar se a reabilitação do MAP melhora disfunções pélvicas no pós-operatório de câncer retal

A intervenção reduziu sintomas de incontinência e melhorou a qualidade de vida

Hayes JL, et al. (2021)

Fisioterapia pré e pós-operatória do assoalho pélvico para disfunção intestinal após câncer retal

Protocolo de ensaio clínico randomizado

Detalhar o desenho e os objetivos de um ensaio sobre fisioterapia do MAP em câncer retal

Estabelece metodologia para avaliar eficácia da fisioterapia, mas não apresenta resultados (protocolo)

Brennen R, et al. (2020)

Efeito de intervenções musculares do assoalho pélvico em sobreviventes de câncer ginecológico

Revisão sistemática

Avaliar a eficácia de intervenções nos MAP em mulheres após câncer ginecológico

Evidências mostram melhora da incontinência urinária e da função sexual

Milios JE, et al. (2019)

Treinamento do assoalho pélvico na prostatectomia radical: revisão sistemática

Revisão sistemática

Revisar evidências sobre treinamento de MAP para incontinência pós-prostatectomia

Concluiu que o treinamento precoce dos MAP acelera a recuperação da continência

Rutledge TL, et al. (2017)

Treinamento do assoalho pélvico e terapia comportamental para sintomas urinários em sobreviventes de câncer

Ensaio clínico piloto randomizado

Avaliar a eficácia combinada de treinamento de MAP e terapia comportamental

Redução de sintomas urinários e melhora da qualidade de vida

Lin KY, et al. (2015)

Treinamento do assoalho pélvico para disfunção intestinal após cirurgia colorretal

Revisão sistemática

Analisar se o MAP melhora disfunções intestinais após cirurgia colorretal

Encontrou melhora moderada de evacuação e controle fecal

Overgård M, et al. (2008)

Treinamento guiado pelo fisioterapeuta para incontinência após prostatectomia radical

Ensaio clínico randomizado

Determinar se o treinamento guiado dos MAP reduz incontinência após prostatectomia

O treinamento precoce reduziu significativamente a incontinência urinária

Fonte: Os autores 2025.

Discussão

As disfunções do assoalho pélvico após cirurgias oncológicas representam complicações frequentes e multifatoriais, abrangendo incontinência urinária, incontinência fecal, dor pélvica, dispareunia, alterações neuromusculares e prejuízo funcional global. Esses efeitos decorrem de mecanismos combinados que incluem lesão neural intraoperatória, remoção de estruturas musculares e ligamentares, comprometimento esfincteriano, alterações cicatriciais e repercussões psicossociais associadas ao diagnóstico e tratamento do câncer. Os achados desta revisão demonstram que a fisioterapia especializada tem papel fundamental na reabilitação desses pacientes, utilizando intervenções como treinamento muscular do assoalho pélvico, biofeedback, eletroestimulação, terapia manual e educação terapêutica. Esses métodos mostram eficácia significativa na redução dos sintomas e na recuperação funcional após procedimentos oncológicos pélvicos [1–4].

A integração interdisciplinar entre fisioterapia e as equipes médicas, incluindo oncologia, urologia, ginecologia, coloproctologia e medicina física e reabilitação, mostrou-se essencial para um manejo seguro e eficaz. Os estudos analisados reforçam que essa colaboração facilita o rastreio precoce de complicações, o acompanhamento contínuo dos sintomas urinários e intestinais, a monitorização da função esfincteriana e a indicação adequada de tratamentos complementares. Além disso, a comunicação entre os profissionais contribui para a elaboração de programas de reabilitação mais completos e personalizados, o que resulta em melhor recuperação funcional, redução de sequelas duradouras e aprimoramento da qualidade de vida dos pacientes, especialmente daqueles submetidos a prostatectomia radical, histerectomia oncológica ou cirurgias colorretais [2,5–7].

Os programas estruturados de reabilitação se destacaram como estratégias fundamentais para a manutenção dos ganhos funcionais após cirurgias oncológicas pélvicas. Intervenções realizadas presencialmente ou por meio de orientações domiciliares e acompanhamento remoto apresentaram resultados positivos, especialmente no aumento da força muscular, na melhora do controle esfincteriano, na redução da dor e na otimização da função sexual [3,8–10]. Observou-se também que a educação em saúde é indispensável para o sucesso a longo prazo, pois auxilia o paciente a compreender o impacto da cirurgia sobre o assoalho pélvico, identificar sinais de disfunção e adotar estratégias adequadas de autocuidado.

Entre os pontos fortes desta revisão, destacam-se a inclusão de estudos recentes e metodologicamente consistentes, bem como a análise crítica de intervenções fisioterapêuticas aplicadas em diferentes tipos de cirurgias oncológicas. Entretanto, limitações importantes foram identificadas, como a heterogeneidade dos protocolos de reabilitação, a variação no tempo de início das intervenções (pré, pós-operatório imediato ou tardio) e o número ainda limitado de ensaios clínicos randomizados com acompanhamento prolongado. Esses aspectos dificultam a comparação entre estudos e limitam a elaboração de diretrizes uniformes [4,7,9].

Os achados da presente revisão reforçam que o manejo das disfunções do assoalho pélvico no contexto oncológico deve ser individualizado e embasado em protocolos que integrem exercícios ativos, recursos fisioterapêuticos específicos, apoio psicológico e acompanhamento médico contínuo. Essa combinação favorece a preservação da função perineal, previne complicações secundárias, reduz a dor e melhora a autonomia dos pacientes, contribuindo para o retorno às atividades sociais, laborativas e sexuais. Assim, este estudo amplia as evidências disponíveis ao demonstrar que a fisioterapia é componente central da reabilitação pélvica após cirurgias oncológicas e que a abordagem interdisciplinar é determinante para o sucesso terapêutico.

Os resultados também evidenciam importantes lacunas na literatura atual, como a necessidade de protocolos adaptados para cada tipo de cirurgia oncológica, estudos que comparem diferentes combinações de intervenções e pesquisas longitudinais que avaliem a manutenção dos ganhos funcionais ao longo dos anos. Investigações futuras devem priorizar metodologias robustas e padronizadas, incluindo maior diversidade populacional e avaliações baseadas em qualidade de vida, função sexual e autonomia.

Além disso, observou-se que estratégias como educação terapêutica, exercícios domiciliares supervisionados e acompanhamento digital podem ampliar o acesso ao tratamento e promover manutenção dos resultados obtidos, principalmente em regiões com menor disponibilidade de serviços especializados. O envolvimento ativo do paciente e o apoio familiar também são elementos essenciais para o êxito da reabilitação, reforçando a importância de abordagens centradas no indivíduo.

Dessa forma, o manejo das disfunções do assoalho pélvico decorrentes de cirurgias oncológicas exige atuação coordenada entre fisioterapia e medicina, com protocolos personalizados, monitoramento clínico contínuo e educação em saúde. Essa abordagem é essencial para restaurar a função pélvica, prevenir incapacidades e promover qualidade de vida duradoura aos pacientes em reabilitação oncológica.

Conclusão

A reabilitação das disfunções do assoalho pélvico após cirurgias oncológicas constitui um processo complexo e contínuo que exige uma abordagem integrada e individualizada. As evidências analisadas demonstram que a fisioterapia desempenha papel central na recuperação funcional, contribuindo para a melhora da continência urinária e fecal, da função sexual, do controle motor pélvico e da qualidade de vida. Protocolos bem estruturados que incluem treinamento dos músculos do assoalho pélvico, técnicas de coordenação e fortalecimento, terapia manual, eletroterapia, biofeedback e educação em saúde apresentam resultados superiores em comparação a intervenções isoladas, favorecendo a redução da dor, o aprimoramento do desempenho funcional e a prevenção de sequelas tardias.

A atuação médica, por meio do monitoramento clínico contínuo, do controle de complicações pós-operatórias, do manejo de sintomas como linfedema, dor neuropática e alterações intestinais e do suporte às necessidades específicas de cada tipo de câncer, quando associada às intervenções fisioterapêuticas, contribui para uma reabilitação mais segura e eficaz. Essa integração permite ajustar os planos terapêuticos de acordo com o estágio cirúrgico e a evolução de cada paciente, favorecendo a identificação precoce de disfunções e otimização do cuidado.

Assim, a união coordenada entre fisioterapia e medicina representa um recurso indispensável para o manejo das disfunções pélvicas decorrentes de cirurgias oncológicas. Essa parceria profissional favorece a recuperação da estabilidade funcional, o restabelecimento da continência, a melhora da função sexual, o alívio da dor e a manutenção da autonomia. Os achados desta revisão reforçam a necessidade de protocolos interdisciplinares bem estruturados que integrem terapias físicas, estratégias educacionais, acompanhamento clínico contínuo e suporte psicossocial, garantindo intervenções eficazes, duradouras e centradas nas necessidades do paciente oncológico.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

Financiamento

Financiamento próprio.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Marcolan MZ, Rocha JT, Pinto AFV, Morbelli CP, Novaes MVG, Meireles IS, Modenesi V, Oliveira JMC; Obtenção de dados: Marcolan MZ, Rocha JT, Pinto AFV, Morbelli CP, Novaes MVG, Meireles IS, Modenesi V, Oliveira JMC; Análise e interpretação de dados: Marcolan MZ, Rocha JT, Pinto AFV, Morbelli CP, Novaes MVG, Meireles IS, Modenesi V, Oliveira JMC; Redação do manuscrito: Marcolan MZ, Rocha JT, Pinto AFV, Morbelli CP, Novaes MVG, Meireles IS, Modenesi V, Oliveira JMC; Revisão do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Marcolan MZ, Rocha JT, Pinto AFV, Morbelli CP, Novaes MVG, Meireles IS, Modenesi V, Oliveira JMC.

Referências

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