Enferm Bras. 2026;25(3):3379-3391
doi: 10.62827/eb.v25i3.4231

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Visita técnica em serviço especializado de atenção às pessoas com condições neurológicas: Relato de experiência na formação em enfermagem

Valquíria da Silva Pereira1, Eliane Hasselmann1, Priscila dos Santos Miguel1, Ademir José de Oliveira1, Iara Iracema Almeida Nor1, Matheus Domingues Hofmann1, Leonardo Barros do Amarante1

1Faculdade Anhanguera, Porto Alegre, RS, Brasil

Recebido em: 8 de Julho de 2026; Aceito em: 17 de Julho de 2026.

Correspondência: Leonardo Barros do Amarante, amarante.lbam@gmail.com

Como citar

Pereira VS, Hasselmann E, Miguel PS, Oliveira AJ, Nor IIA, Hofmann MD, Amarante LB. Visita técnica em serviço especializado de atenção às pessoas com condições neurológicas: Relato de experiência na formação em enfermagem. Enferm Bras. 2026;25(3):3379-3391. doi: 10.62827/eb.v25i3.4231.

Resumo

Introdução: A formação em enfermagem requer estratégias pedagógicas capazes de articular teoria e prática, favorecendo o desenvolvimento de competências técnicas, éticas, humanas e crítico-reflexivas. Nesse contexto, as visitas técnicas constituem ferramentas relevantes de ensino-aprendizagem, por aproximarem os estudantes da realidade dos serviços de saúde e dos diferentes cenários de cuidado. Objetivo: Relatar a experiência de acadêmicos de enfermagem durante visita técnica realizada em uma instituição especializada no cuidado de pessoas com condições neurológicas, condições neurológicas complexas e necessidades especiais de saúde. Métodos: Relato de experiência, de caráter descritivo-reflexivo, elaborado a partir da vivência de acadêmicos de enfermagem durante visita técnica realizada em uma instituição especializada localizada na região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Resultados: A experiência possibilitou a observação da organização institucional, da atuação multiprofissional e do papel do enfermeiro na coordenação e supervisão do cuidado. Os acadêmicos acompanharam atividades relacionadas à higiene, alimentação, reabilitação, conforto e assistência integral aos residentes. Inicialmente, foram observados sentimentos de insegurança e impacto emocional, que, ao longo da vivência, foram ressignificados em reflexões sobre empatia, humanização, vínculo e integralidade do cuidado. Conclusão: A visita técnica possibilitou ampliar a compreensão dos acadêmicos acerca da assistência prestada em instituições especializadas e suscitou reflexões sobre dimensões técnicas, éticas, humanas e crítico-reflexivas da formação em enfermagem.

Palavras-chave: Educação em Enfermagem; Aprendizagem Baseada na Experiência; Humanização da Assistência; Doenças do Sistema Nervoso; Formação Profissional.

Technical visit to an institution specialized in the care of people with neurological conditions: An experience report in nursing education

Abstract

Introduction: Nursing education requires pedagogical strategies capable of articulating theory and practice while promoting the development of technical, ethical, human, and critical-reflective competencies. In this context, technical visits are relevant teaching-learning tools, as they bring students closer to the reality of health services and different care settings. Objective: To report the experience of nursing students during a technical visit to a specialized institution caring for people with neurological disabilities, complex neurological conditions, and special health care needs. Methods: Descriptive-reflective experience report based on the experience of nursing students during a technical visit to a specialized institution located in the Porto Alegre region, Rio Grande do Sul, Brazil. Results: The experience enabled students to observe institutional organization, multidisciplinary teamwork, and the nurse’s role in care coordination and supervision. Students followed activities related to hygiene, feeding, rehabilitation, comfort, and comprehensive care for residents. Initial feelings of insecurity and emotional impact were gradually reinterpreted through reflections on empathy, humanization, bonding, and comprehensive care. Conclusion: The technical visit broadened students’ understanding of care provided in specialized institutions and prompted reflections on technical, ethical, human, and critical-reflective dimensions of nursing education.

Keywords: Nursing Education; Problem-Based Learning; Humanization of Assistance; Nervous System Diseases; Professional Training.

Visita técnica a una institución especializada en la atención de personas con afecciones neurológicas: Relato de experiencia en la formación en enfermería

Resumen

Introducción: La formación en enfermería requiere estrategias pedagógicas capaces de articular teoría y práctica, favoreciendo el desarrollo de competencias técnicas, éticas, humanas y crítico-reflexivas. En este contexto, las visitas técnicas constituyen herramientas relevantes de enseñanza-aprendizaje, al acercar a los estudiantes a la realidad de los servicios de salud y a diferentes escenarios de cuidado. Objetivo: Relatar la experiencia de estudiantes de enfermería durante una visita técnica realizada en una institución especializada en el cuidado de personas con discapacidades neurológicas, condiciones neurológicas complejas y necesidades especiales de salud. Métodos: Relato de experiencia de carácter descriptivo-reflexivo, elaborado a partir de la vivencia de estudiantes de enfermería durante una visita técnica realizada en una institución especializada ubicada en la región de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Resultados: La experiencia permitió observar la organización institucional, la actuación multiprofesional y el papel del enfermero en la coordinación y supervisión del cuidado. Los estudiantes acompañaron actividades relacionadas con higiene, alimentación, rehabilitación, confort y atención integral a los residentes. Inicialmente, se observaron sentimientos de inseguridad e impacto emocional, que, a lo largo de la vivencia, fueron resignificados en reflexiones sobre empatía, humanización, vínculo e integralidad del cuidado. Conclusión: La visita técnica permitió ampliar la comprensión de los estudiantes sobre la atención prestada en instituciones especializadas y suscitó reflexiones sobre las dimensiones técnicas, éticas, humanas y crítico-reflexivas de la formación en enfermería.

Palabras-clave: Educación en Enfermería; Aprendizaje Basado en Problemas; Humanización de la Atención; Enfermedades del Sistema Nervioso; Formación Profesional.

Introdução

A formação em enfermagem exige a articulação entre conhecimentos científicos, habilidades técnico-assistenciais, competências éticas, relacionais e crítico-reflexivas, de modo a preparar profissionais capazes de atuar em diferentes contextos de atenção à saúde. No Brasil, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem orientam a formação de enfermeiros com perfil generalista, humanista, crítico e reflexivo, aptos a reconhecer necessidades individuais e coletivas de saúde e intervir sobre elas com responsabilidade social [1]. Essa perspectiva dialoga com os princípios da Política Nacional de Humanização, ao compreender o cuidado como prática centrada na singularidade dos sujeitos, na integralidade da atenção, na corresponsabilização e na valorização dos vínculos entre profissionais, usuários, famílias e serviços [2].

Nesse contexto, a aproximação entre teoria e prática constitui elemento essencial na formação do enfermeiro, pois permite ao estudante compreender a complexidade dos serviços de saúde, reconhecer processos de trabalho e desenvolver competências relacionadas à comunicação, à tomada de decisão, ao raciocínio clínico e ao trabalho em equipe [1,3,4]. Entre as estratégias pedagógicas utilizadas na graduação, a visita técnica destaca-se por possibilitar o contato dos acadêmicos com cenários reais de cuidado, favorecendo a observação da organização institucional, da dinâmica assistencial e da atuação dos diferentes profissionais envolvidos na assistência [5-7]. Estudos empíricos realizados na graduação em enfermagem descrevem que essa estratégia pode ampliar o conhecimento sobre a rotina dos serviços, apoiar a aprendizagem significativa e favorecer a articulação entre conteúdos teóricos e situações concretas de cuidado [5-7].

As instituições especializadas no cuidado de pessoas com deficiências neurológicas, condições neurológicas complexas e necessidades especiais de saúde constituem espaços de elevada relevância formativa. Esses serviços acolhem pessoas que frequentemente apresentam condições crônicas, limitações funcionais, dependência parcial ou total para atividades de vida diária e necessidade de assistência contínua, integral e interdisciplinar [8-10]. Assim, o cuidado voltado a essa população exige profissionais preparados para reconhecer singularidades, promover conforto, prevenir agravos, estimular a autonomia possível e garantir uma assistência ética, segura e humanizada [2,8-10]. Esse cenário foi escolhido por possibilitar o contato dos acadêmicos com situações de dependência funcional, cuidado contínuo, comunicação singular e atuação interprofissional, aspectos particularmente relevantes para a formação em enfermagem e nem sempre contemplados em cenários assistenciais generalistas.

A vivência em cenários especializados também contribui para ampliar a compreensão dos estudantes sobre inclusão, acessibilidade, comunicação, dependência funcional, cuidado contínuo e direitos humanos. Além disso, permite observar a importância do trabalho multiprofissional e da atuação do enfermeiro na coordenação, supervisão e organização do cuidado, especialmente em contextos marcados por alta dependência e necessidades assistenciais complexas [10-13]. Nesses espaços, o cuidado não se limita à execução de procedimentos, mas envolve vínculo, escuta sensível, planejamento, responsabilidade, supervisão e compromisso com a dignidade humana [2,4,14].

Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de acadêmicos de enfermagem durante visita técnica realizada em uma instituição especializada no cuidado de pessoas com deficiências neurológicas e necessidades especiais de saúde, localizada na região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Busca-se refletir sobre as contribuições dessa vivência para a compreensão da organização institucional, da atuação multiprofissional, do papel do enfermeiro e da complexidade do cuidado contínuo, bem como sobre suas possíveis contribuições para as dimensões técnicas, éticas, humanas e crítico-reflexivas da formação em enfermagem.

Métodos

Trata-se de um relato de experiência, de caráter descritivo-reflexivo, elaborado a partir da vivência de acadêmicos do curso de graduação em Enfermagem durante visita técnica realizada em uma instituição especializada no cuidado de pessoas com condições neurológicas, localizada na região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Participaram da atividade mais de 10 acadêmicos, matriculados no curso de graduação em Enfermagem.

A atividade foi desenvolvida como estratégia pedagógica vinculada ao processo de formação dos estudantes, com a finalidade de aproximar os conteúdos teóricos abordados em sala de aula da realidade do cuidado prestado em instituições especializadas. A visita possibilitou a observação da organização institucional, da dinâmica assistencial, da atuação multiprofissional e do papel da enfermagem na coordenação e supervisão do cuidado. A instituição foi selecionada por constituir um cenário de cuidado contínuo a pessoas com condições neurológicas, diferentes graus de dependência e demandas interprofissionais, realidade considerada pertinente aos objetivos formativos da atividade.

Inicialmente, os acadêmicos foram recepcionados pela enfermeira responsável técnica da instituição, que apresentou a história, a missão, a estrutura organizacional e o funcionamento do serviço. Em seguida, foi realizada visita guiada pelos diferentes espaços institucionais, permitindo aos estudantes conhecer ambientes de repouso, convivência, higiene, atendimento multiprofissional e organização das rotinas assistenciais.

Durante a atividade, os estudantes observaram práticas relacionadas à higiene corporal e oral, alimentação por via oral e enteral, administração de medicamentos, mobilização, reabilitação, conforto, prevenção de agravos e promoção da qualidade de vida dos residentes. Também participaram de momentos de diálogo com a enfermeira responsável, nos quais foram discutidos aspectos relacionados à organização do cuidado, ao gerenciamento da equipe, às especificidades da assistência e ao papel da enfermagem no contexto institucional.

Após a visita, foi realizada uma discussão coletiva orientada pelos docentes responsáveis, com duração aproximada de 100 minutos, conduzida a partir de questões norteadoras sobre as percepções iniciais, os sentimentos despertados, a organização do cuidado, a atuação da equipe multiprofissional e o papel do enfermeiro. Os acadêmicos compartilharam oralmente suas impressões e aprendizagens. Para a elaboração do relato, as reflexões foram sistematizadas de modo descritivo, sem aplicação de instrumento de avaliação e sem emprego de técnica formal de análise qualitativa.

Por se tratar de relato de experiência decorrente de atividade acadêmica de ensino-aprendizagem, sem intervenção sobre participantes, sem entrevistas, sem aplicação de instrumentos, sem coleta de dados sensíveis e sem identificação de residentes, profissionais ou estudantes, o estudo não foi submetido ao Sistema CEP/Conep. Foram observados os princípios éticos de confidencialidade, privacidade, respeito institucional, não identificação dos sujeitos e preservação da imagem da instituição visitada.

Resultados

A visita técnica foi realizada em uma instituição especializada no cuidado de pessoas com condições neurológicas complexas e necessidades especiais de saúde, localizada na região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. A atividade foi conduzida e acompanhada pela enfermeira responsável técnica, que inicialmente apresentou a estrutura institucional, a organização do serviço e os profissionais que compõem a equipe assistencial. Entre os trabalhadores mencionados, destacaram-se enfermeiros, técnicos de enfermagem, cuidadores, fisioterapeutas, profissionais da saúde bucal, cozinheiros e colaboradores dos serviços gerais.

Durante a visita, os acadêmicos puderam conhecer os diferentes espaços da instituição, incluindo quartos dos residentes, ambientes de convivência, banheiros adaptados, sala de atendimento odontológico, áreas externas e setores destinados à organização do cuidado. Observou-se que a estrutura física era organizada de acordo com as necessidades dos residentes, contemplando ambientes amplos, higienizados, ventilados, climatizados e adaptados para favorecer conforto, segurança e acessibilidade. Os quartos apresentavam características individualizadas, com objetos pessoais, decorações, fotografias e referências aos interesses dos residentes, o que contribuía para tornar o ambiente mais acolhedor e humanizado.

A instituição acolhia dezenas de residentes, em sua maioria adultos, embora também houvesse pessoas de diferentes faixas etárias, incluindo crianças e adolescentes. Os residentes apresentavam distintos graus de dependência e complexidade clínica, com condições relacionadas a deficiências severas, síndromes neurológicas e paralisia cerebral. Alguns mantinham contato com familiares e participavam de momentos externos à instituição, enquanto outros tinham na equipe do residencial sua principal referência de cuidado, vínculo e convivência cotidiana.

No decorrer da atividade, os estudantes acompanharam diferentes práticas assistenciais desenvolvidas pela equipe. Foram observados cuidados relacionados à higiene corporal, como banhos de aspersão realizados pelos cuidadores, higiene oral realizada por profissional da saúde bucal, troca de roupas, hidratação da pele, posicionamento adequado e organização dos leitos. Também foram acompanhadas rotinas relacionadas à alimentação, incluindo alimentação por via oral e por jejunostomia, conforme as necessidades individuais de cada residente.

Após os cuidados de higiene, alimentação e medicação, alguns residentes eram encaminhados ao pátio externo, em cadeiras de rodas, para exposição solar e convivência em ambiente aberto. Observou-se que aqueles com maiores limitações motoras ou clínicas permaneciam no leito, recebendo cuidados específicos conforme suas necessidades. Durante essas atividades, chamou a atenção dos acadêmicos a preocupação da equipe com a integridade da pele, conforto, vestuário adequado, hidratação, segurança e supervisão contínua dos residentes.

A proximidade dos cuidadores com os residentes mostrou-se um aspecto relevante da assistência. Por estarem em contato contínuo com os moradores, esses profissionais demonstravam conhecer suas rotinas, preferências, expressões, comportamentos e sinais de alteração. Essa relação favorecia a identificação precoce de mudanças clínicas ou comportamentais, possibilitando comunicação rápida com a equipe de enfermagem diante de intercorrências ou necessidades específicas.

Também foi possível observar a atuação da fisioterapia junto aos residentes. As intervenções eram realizadas conforme as condições individuais, incluindo mobilizações, exercícios passivos, manobras respiratórias, aspiração de vias aéreas quando necessária e atividades voltadas à manutenção da mobilidade, prevenção de complicações, melhora do tônus, controle motor e promoção do conforto. Essa atuação evidenciou a importância do trabalho multiprofissional no cuidado de pessoas com alta dependência e necessidades complexas de saúde.

A atuação da enfermeira responsável destacou-se ao longo de toda a visita. Além de apresentar a instituição e conduzir o diálogo com os acadêmicos, a profissional demonstrou conhecimento sobre a condição dos residentes, organização das rotinas, supervisão da equipe e articulação entre os diferentes trabalhadores envolvidos no cuidado. Sua presença evidenciou o papel do enfermeiro na coordenação da assistência, no acompanhamento das demandas institucionais e na garantia da continuidade e qualidade do cuidado prestado.

No início da experiência, os acadêmicos relataram impacto emocional e insegurança diante da complexidade das condições apresentadas pelos residentes. O contato inicial com pessoas em situação de grande dependência, com limitações motoras importantes e necessidades contínuas de cuidado despertou sentimentos de surpresa, sensibilidade e reflexão. No entanto, à medida que a visita avançou e os estudantes passaram a compreender melhor a rotina institucional, esses sentimentos foram sendo ressignificados.

A interação com a equipe e a observação do cuidado cotidiano permitiram aos acadêmicos reconhecer a dedicação, o vínculo e o compromisso dos profissionais com os residentes. A forma como os cuidados eram realizados evidenciou atenção, paciência, respeito e afeto nas relações estabelecidas. Esse contato possibilitou aos estudantes ampliar sua compreensão sobre o cuidado humanizado, percebendo que a assistência em instituições especializadas envolve não apenas procedimentos técnicos, mas também escuta, sensibilidade, presença, vínculo e reconhecimento da dignidade de cada pessoa.

Ao final da visita, os relatos compartilhados pelos acadêmicos sugeriram mudança na percepção em relação ao cenário conhecido. O impacto inicial deu lugar à admiração pelo trabalho desenvolvido e à compreensão da complexidade do cuidado prestado. A experiência possibilitou aos estudantes refletir sobre o papel da enfermagem, a importância da equipe multiprofissional, a centralidade dos cuidadores e os desafios envolvidos na assistência a pessoas com condições neurológicas e necessidades especiais de saúde.

Dessa forma, a visita técnica possibilitou aos acadêmicos vivenciar uma aproximação significativa com uma realidade assistencial nem sempre experienciada de forma direta durante a formação inicial. Com base nas percepções compartilhadas, a experiência pareceu favorecer reflexões relacionadas à observação clínica, comunicação, empatia, trabalho em equipe, integralidade do cuidado e humanização na prática em enfermagem.

Discussão

A visita técnica realizada em uma instituição especializada da região de Porto Alegre possibilitou aos acadêmicos de enfermagem uma aproximação concreta com um cenário de cuidado contínuo, complexo e humanizado. Essa experiência dialoga diretamente com as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem, que orientam a formação de profissionais generalistas, críticos, reflexivos e capazes de atuar diante das necessidades individuais e coletivas de saúde [1]. Ao mesmo tempo, a vivência observada aproxima-se dos princípios da Política Nacional de Humanização, especialmente por evidenciar a importância do vínculo, da corresponsabilização, da valorização dos sujeitos e da integralidade do cuidado [2]. Nessa perspectiva, a visita técnica ultrapassou o caráter meramente observacional e apresentou potencial para suscitar reflexão crítica sobre a prática profissional, conforme defendido pela pedagogia freireana e pela compreensão ampliada da formação em saúde [3,15].

Os achados da experiência reforçam que a formação em enfermagem não deve restringir-se à transmissão de conteúdos ou à aprendizagem de procedimentos técnicos. A observação da rotina institucional, da organização do cuidado e das necessidades dos residentes permitiu aos acadêmicos reconhecer que o cuidado em enfermagem envolve dimensões técnicas, éticas, relacionais, gerenciais e humanas [1,4]. Essa compreensão aproxima-se da concepção de cuidado como elemento estruturante da identidade profissional da enfermagem, uma vez que o ato de cuidar envolve presença, responsabilidade, vínculo, escuta, tomada de decisão e reconhecimento da singularidade da pessoa assistida [4]. Desse modo, a experiência ofereceu elementos para ampliar a percepção dos estudantes sobre a complexidade da prática profissional e sobre a necessidade de uma formação sensível às demandas reais dos serviços de saúde [1,3,4].

A visita técnica mostrou-se uma estratégia pedagógica relevante por possibilitar o contato dos estudantes com um cenário real de atuação profissional. Estudos nacionais indicam que esse tipo de atividade favorece a observação da rotina institucional, amplia a compreensão dos acadêmicos sobre a organização dos serviços e pode apoiar a aprendizagem significativa na graduação em enfermagem [5-7]. No presente relato, a observação da estrutura institucional, da dinâmica assistencial, da atuação da equipe multiprofissional e da rotina dos residentes permitiu aos estudantes compreender aspectos que dificilmente seriam apreendidos apenas em sala de aula. Assim, a visita técnica funcionou como mediação entre o conteúdo teórico e a realidade concreta do cuidado, oferecendo subsídios para uma postura mais crítica, sensível e reflexiva diante da assistência [5-7].

O cenário visitado também evidenciou a importância de inserir, na formação em enfermagem, discussões e vivências relacionadas ao cuidado de pessoas com condições neurológicas e necessidades especiais de saúde. Pessoas com necessidades especiais de saúde frequentemente demandam acompanhamento contínuo, recursos especializados e cuidados individualizados, em razão de condições físicas, desenvolvimentais, emocionais ou comportamentais [8,9]. A literatura aponta que esse grupo vivencia situações de vulnerabilidade associadas às limitações funcionais, às barreiras de acesso, à dependência de cuidados prolongados e à necessidade de suporte familiar, institucional e multiprofissional [8,9]. Nesse sentido, a visita permitiu aos acadêmicos compreender que o cuidado a essa população exige mais do que domínio técnico, demandando sensibilidade ética, comunicação adequada, respeito à dignidade humana e reconhecimento das singularidades de cada residente [2,8-10].

A experiência também revelou a relevância das instituições especializadas como cenários de aprendizagem para a formação em enfermagem. A observação de residentes com diferentes graus de dependência, necessidades contínuas de cuidado, limitações motoras e demandas de reabilitação permitiu aos estudantes refletir sobre a complexidade da assistência prestada a pessoas com condições e condições crônicas [8-10]. Revisão sistemática recente sobre a formação de enfermeiros para o cuidado de pessoas com deficiência destaca a necessidade de adaptar currículos, ampliar experiências práticas e fortalecer competências relacionadas à acessibilidade, comunicação, inclusão, segurança e cuidado centrado na pessoa [10]. Dessa forma, a visita técnica aproximou os acadêmicos de uma realidade assistencial que precisa estar mais presente na formação em saúde, especialmente por envolver populações historicamente marcadas por vulnerabilidades e barreiras de cuidado [8-10].

Outro aspecto observado foi a centralidade do trabalho multiprofissional na organização da assistência. A presença de enfermeiros, técnicos de enfermagem, cuidadores, fisioterapeutas, profissionais da saúde bucal e demais trabalhadores evidenciou que o cuidado em instituições especializadas depende da articulação entre diferentes saberes e práticas. Estudos recentes demonstram que experiências educacionais baseadas na educação interprofissional favorecem a comunicação, a colaboração, a compreensão dos papéis profissionais e a qualificação do cuidado em saúde [11-13]. No contexto observado, a atuação integrada da equipe mostrou-se essencial para atender às necessidades físicas, funcionais, emocionais e sociais dos residentes, reforçando que a o cuidado depende da cooperação entre profissionais e da construção compartilhada das ações assistenciais [3,11-13].

A participação dos cuidadores na rotina institucional também se destacou como elemento importante da assistência. Por manterem contato contínuo com os residentes, esses trabalhadores demonstraram conhecimento sobre preferências, comportamentos, formas de comunicação e sinais de alteração clínica ou emocional. Essa proximidade favorece a identificação precoce de mudanças no estado geral dos residentes e fortalece a comunicação com a equipe de enfermagem diante de intercorrências. No entanto, a presença dos cuidadores na dinâmica assistencial também reforça a necessidade de supervisão, orientação, educação permanente e definição clara de responsabilidades, aspectos fundamentais para a segurança, continuidade e qualidade do cuidado [1,3,10,11]. Nesse sentido, a enfermagem assume papel estratégico ao coordenar, supervisionar e articular o trabalho cotidiano da equipe [1,3,4].

A atuação da enfermeira responsável técnica foi um dos elementos centrais observados durante a visita. Sua participação na apresentação da instituição, na supervisão das rotinas, na organização da equipe e na articulação entre os diferentes profissionais evidenciou a amplitude do trabalho do enfermeiro em cenários de cuidado contínuo. As Diretrizes Curriculares apontam que o enfermeiro deve estar preparado para atuar na assistência, gestão, educação, tomada de decisão, comunicação e liderança [1]. Essa compreensão também se relaciona ao quadrilátero da formação em saúde, que articula ensino, gestão, atenção e controle social como dimensões inseparáveis da prática profissional [3]. No cenário visitado, a atuação da enfermeira demonstrou que o cuidado qualificado depende não apenas da execução de procedimentos, mas também de planejamento, supervisão, gerenciamento de recursos, educação da equipe e acompanhamento individualizado dos residentes [1,3,4].

A experiência possibilitou, ainda, reflexões sobre a formação clínica e o preparo dos estudantes para o contato com realidades assistenciais complexas. Estudos recentes indicam que experiências práticas, estágios, cenários clínicos e estratégias de aprendizagem situada contribuem para o desenvolvimento da identidade profissional, da segurança, do julgamento clínico e da compreensão das exigências reais do cuidado em enfermagem [16-19]. Embora a visita técnica não substitua práticas clínicas supervisionadas, ela pode funcionar como uma experiência inicial de aproximação com o campo, permitindo ao estudante observar situações concretas, formular perguntas, relacionar conteúdos teóricos à prática e desenvolver maior sensibilidade diante da realidade dos serviços [5-7,16-19]. Nesse sentido, a experiência relatada ofereceu aos acadêmicos a oportunidade de ampliar o repertório formativo e construir uma compreensão mais concreta da prática profissional.

As emoções relatadas pelos estudantes no início da visita, como insegurança, impacto e sensibilização diante da condição dos residentes, também constituem elementos importantes do processo formativo. O contato com pessoas em situação de alta dependência pode provocar estranhamento inicial, especialmente quando os estudantes ainda possuem pouca experiência em cenários especializados. No entanto, quando mediadas por diálogo, orientação docente e reflexão crítica, essas experiências podem contribuir para o desenvolvimento de empatia, comunicação, maturidade ética e compreensão ampliada do cuidado [13,15,20,21]. Estudos recentes indicam que a empatia e as competências socioemocionais podem ser desenvolvidas ao longo da formação, especialmente por meio de experiências que aproximam os estudantes das necessidades reais das pessoas assistidas [13,20-22].

A observação da relação entre profissionais, cuidadores e residentes evidenciou a humanização como eixo fundamental da assistência. O cuidado prestado não se restringia a procedimentos, alimentação, higiene ou administração de medicamentos, mas envolvia vínculo, paciência, respeito, afeto, reconhecimento da individualidade e valorização da dignidade humana. Revisão sistemática recente sobre humanização do cuidado em enfermagem destaca que a assistência humanizada envolve comunicação, empatia, respeito, escuta, sensibilidade e cuidado centrado na pessoa [14]. Outros estudos recentes reforçam que comportamentos de cuidado, atitudes éticas, empatia, comunicação e habilidades humanas são componentes indispensáveis à formação e à prática em enfermagem [20-24]. Assim, a visita técnica permitiu aos acadêmicos perceber que a humanização não é um elemento abstrato, mas uma prática cotidiana expressa na forma como os profissionais se relacionam com os residentes e organizam o cuidado [2,14,20-24].

A experiência também permitiu compreender que o cuidado a pessoas com condições neurológicas e necessidades especiais de saúde exige uma abordagem integral e contínua. A presença de residentes com diferentes condições clínicas, graus de dependência e formas de comunicação demandava atenção permanente às necessidades físicas, emocionais, sociais e relacionais. Esse achado dialoga com a literatura ao indicar que pessoas com necessidades especiais de saúde necessitam de cuidado ampliado, acompanhamento contínuo e profissionais preparados para reconhecer vulnerabilidades e promover qualidade de vida [8-10]. Nesse sentido, a visita contribuiu para que os acadêmicos reconhecessem a importância de práticas assistenciais individualizadas, interprofissionais e humanizadas, especialmente em contextos nos quais a dependência prolongada e a complexidade do cuidado estão presentes [8-11,14].

Dessa forma, a visita técnica constituiu uma experiência significativa para os acadêmicos de enfermagem, ao integrar observação da prática, reflexão crítica, sensibilização humana e compreensão da organização institucional do cuidado. As percepções compartilhadas sugerem que estratégias pedagógicas inseridas em cenários reais podem favorecer a aprendizagem contextualizada e a articulação entre teoria e prática [5-7,16-19,25]. Além disso, a experiência suscitou reflexões sobre a atuação do enfermeiro, o trabalho multiprofissional, a humanização e a formação para o cuidado de pessoas com condições e necessidades especiais de saúde [1,2,8-14,20-24]. Entretanto, por se tratar de uma experiência única, localizada e sem avaliação formal dos resultados educacionais, não é possível atribuir efeitos amplos à atividade nem generalizar as percepções observadas. Assim, os achados indicam que a visita técnica pode constituir uma estratégia complementar na graduação em enfermagem, cuja contribuição deve ser analisada de acordo com o contexto e os objetivos pedagógicos de cada atividade.

Conclusão

A visita técnica possibilitou aos acadêmicos de enfermagem uma aproximação significativa com a realidade de uma instituição especializada no cuidado de pessoas com condições neurológicas e necessidades especiais de saúde. Com base nas percepções compartilhadas, a experiência pareceu ampliar a compreensão dos estudantes sobre a complexidade do cuidado contínuo, individualizado e humanizado, especialmente em contextos marcados por dependência funcional, necessidade de acompanhamento permanente e atuação multiprofissional.

A vivência permitiu observar a organização institucional, a dinâmica assistencial, a participação dos cuidadores e o papel do enfermeiro na coordenação, supervisão e articulação das ações de cuidado. Também evidenciou que a assistência prestada a essa população não se limita à realização de procedimentos, mas envolve vínculo, comunicação sensível, respeito à singularidade e compromisso com a dignidade humana.

Do ponto de vista formativo, a visita suscitou reflexões sobre dimensões técnicas, éticas, relacionais e crítico-reflexivas da prática em enfermagem. O contato com a realidade institucional também favoreceu a discussão sobre a insegurança inicial dos acadêmicos, a empatia, o trabalho em equipe, a humanização e a integralidade do cuidado.

Nesta experiência, a visita técnica mostrou-se uma estratégia pedagógica pertinente para aproximar teoria e prática e favorecer uma aprendizagem concreta, sensível e contextualizada. Entretanto, os achados devem ser interpretados considerando que se trata de uma experiência única, localizada e sem avaliação formal dos resultados educacionais, o que limita sua generalização. Recomenda-se que novas atividades semelhantes sejam acompanhadas de estratégias sistemáticas de avaliação, a fim de examinar com maior precisão suas contribuições para a formação em enfermagem.

Declaração sobre o uso de Inteligência Artificial

Este manuscrito contou com o uso de ferramentas de Inteligência Artificial exclusivamente para apoio à adequação textual, à revisão gramatical, à organização linguística e à conformidade com as normas editoriais e de formatação, conforme as diretrizes institucionais vigentes. Ressalta-se que todas as análises, interpretações, reflexões críticas e o conteúdo científico apresentado são de inteira responsabilidade dos autores.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Financiamento

O estudo não recebeu financiamento.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Pereira VS, Hasselmann E, Miguel PS, Oliveira AJ, Nor IIA, Hofmann MD, Amarante LB; Redação do manuscrito: Pereira VS, Hasselmann E, Miguel PS, Oliveira AJ, Nor IIA, Hofmann MD, Amarante LB; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Amarante LB.

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