ARTIGO ORIGINAL
Percepção dos familiares sobre o acolhimento de Enfermagem ao Paciente Oncológico em Cuidados Paliativos: Um estudo quantitativo
Luana Stefane Araújo Silva1, Poliana Karolaine de Araujo Silva1, Mariane Mariano1, Ana Clara do Nascimento Ramires1, Guilherme Luis Nascimento Quintiliano1
1Centro Universitário UninCor, Três Corações, MG, Brasil
Recebido em: 11 de Junho de 2026; Aceito em: 3 de Julho de 2026.
Correspondência: Luana Stefane Araújo Silva, luana.stefane57@gmail.com
Como citar
Silva LSA, Silva PKA, Mariano M, Ramires ACN, Quintiliano GLN. Percepção dos familiares sobre o acolhimento de Enfermagem ao Paciente Oncológico em Cuidados Paliativos: Um estudo quantitativo. Enferm Bras. 2026;25(3):3282-3294 doi: 10.62827/eb.v25i3.4225.
Introdução: O câncer é uma das principais causas de morte no mundo, com cerca de 10 milhões de óbitos anuais, sendo estimados aproximadamente 700 mil novos casos no Brasil entre 2023 e 2025. Nos estágios avançados, os cuidados paliativos visam melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares, reduzindo o sofrimento físico, emocional e social. Nesse contexto, os familiares assumem o papel de cuidadores, enfrentando sobrecarga emocional, ansiedade e isolamento. Objetivo: Analisar o acolhimento do enfermeiro aos familiares de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, identificando suas necessidades e estratégias de suporte. Métodos: Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa, realizada em um município de médio porte no sul de Minas Gerais. Participaram do estudo 10 familiares cuidadores, selecionados por conveniência. A coleta de dados ocorreu por meio de questionário estruturado contendo variáveis sociodemográficas e relacionais, analisadas por estatística descritiva simples. Resultados: Observou-se predominância do sexo feminino (70%), de familiares de primeiro grau (60%) e tempo de cuidado entre seis meses e um ano (70%). Em relação ao acolhimento pela equipe de enfermagem, 40% dos participantes relataram sentir-se sempre acolhidos. As principais dificuldades identificadas foram sobrecarga emocional, cansaço físico e sentimento de impotência (100%), além do medo da evolução da doença (90%), falta de informações sobre o quadro clínico (80%) e dificuldades financeiras (50%). Conclusão: Os resultados evidenciam que os familiares cuidadores enfrentam importantes repercussões emocionais, físicas e sociais, destacando a necessidade de fortalecimento da comunicação, do acolhimento e do suporte oferecido pela equipe de enfermagem, visando uma assistência mais humanizada e integral.
Palavras-chave: Cuidados Paliativos; Enfermagem; Família; Oncologia; Humanização da Assistência.
Family Members’ Perceptions of Nursing Reception for Oncology Patients in Palliative Care: A Quantitative Study
Introduction: Cancer is a leading cause of death worldwide, accounting for approximately 10 million deaths annually, with an estimated 700,000 new cases in Brazil between 2023 and 2025. In advanced stages, palliative care aims to improve the quality of life for patients and their families by alleviating physical, emotional, and social suffering. In this context, family members assume the role of caregivers, facing emotional strain, anxiety, and isolation. Objective: To analyze the support and reception provided by nurses to the family members of cancer patients receiving palliative care, identifying their needs and support strategies. Methods: This is an exploratory, descriptive study with a quantitative approach, conducted in a medium-sized municipality in southern Minas Gerais. Ten family caregivers participated in the study, selected via convenience sampling. Data collection was carried out using a structured questionnaire covering sociodemographic and relational variables, analyzed through simple descriptive statistics. Results: A predominance of females (70%), first-degree relatives (60%), and a caregiving duration of six months to one year (70%) was observed. Regarding the reception provided by the nursing team, 40% of participants reported always feeling supported and welcomed. The main difficulties identified were emotional strain, physical fatigue, and feelings of powerlessness (100%), as well as fear of disease progression (90%), lack of information regarding the clinical condition (80%), and financial difficulties (50%). Conclusion: The results demonstrate that family caregivers face significant emotional, physical, and social impacts, highlighting the need to strengthen communication, reception, and support provided by the nursing team, aiming for more humanized and comprehensive care.
Keywords: Palliative Care; Nursing; Family; Oncology; Humanization of Assistance.
Percepciones de los Familiares sobre la Acogida de Enfermería al Paciente Oncológico en Cuidados Paliativos: Un estudio cuantitativo
Introducción: El cáncer es uma de las principales causas de muerte a nivel mundial, responsable de aproximadamente 10 millones de fallecimientos anuales, com uma estimación de 700.000 nuevos casos em Brasil entre 2023 y 2025. Em etapas avanzadas, los cuidados paliativos buscan mejorar la calidad de vida de los pacientes y sus familias mediante el alivio del sufrimiento físico, emocional y social. Em este contexto, los familiares asumen el rol de cuidadores, enfrentándose a uma carga emocional, ansiedad y aislamiento. Objetivo: Analizar el apoyo y la atención brindados por el personal de enfermería a los familiares de pacientes com cáncer em cuidados paliativos, identificando sus necesidades y las estrategias de apoyo. Métodos: Se trata de um estudio exploratorio-descriptivo com enfoque cuantitativo, realizado em um municipio de tamaño mediano em el sur de Minas Gerais. Participaron em el estudio diez familiares cuidadores, seleccionados mediante muestreo por conveniencia. La recolección de datos se llevó a cabo utilizando um cuestionario estructurado que abordaba variables sociodemográficas y relacionales, analizadas mediante estadística descriptiva simple. Resultados: Se observó um predominio de mujeres (70%), familiares de primer grado (60%) y uma duración del cuidado que oscilaba entre seis meses y um año (70%). Em cuanto a la atención y el apoyo brindados por el equipo de enfermería, el 40% de los participantes manifestó sentirse constantemente apoyado y bien atendido. Las principales dificultades identificadas fueron la carga emocional, la fatiga física y los sentimientos de impotencia (100%), así como el miedo a la progresión de la enfermedad (90%), la falta de información sobre el estado clínico (80%) y las dificultades económicas (50%). Conclusión: Los resultados demuestran que los familiares cuidadores enfrentan impactos emocionales, físicos y sociales significativos, lo que pone de relieve la necesidad de fortalecer la comunicación, la atención y el apoyo brindados por el equipo de enfermería, com el objetivo de lograr uma atención más humanizada e integral.
Palabras-clave: Cuidados Paliativos; Enfermería; Familia; Oncología; Humanización de la Atención.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer representa uma das principais causas de morte em todo o mundo, com estimativas indicando cerca de 10 milhões de óbitos anuais relacionados à doença [1]. No Brasil, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) preveem aproximadamente 700 mil novos casos da doença para o triênio 2023-2025, com os tipos mais comuns sendo os cânceres de pele não melanoma, mama e próstata [2]. Essa realidade evidencia o impacto crescente do câncer na saúde pública, tanto do ponto de vista epidemiológico quanto social.
No contexto do tratamento oncológico, especialmente em estágios avançados, os cuidados paliativos tornam-se fundamentais. Segundo a definição da própria OMS, cuidados paliativos são intervenções que visam melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças ameaçadoras da vida e de seus familiares, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento, com identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e de outros sintomas físicos, psicossociais e espirituais [1]. No Brasil, essa abordagem é respaldada por políticas públicas de saúde, como a Resolução nº 41/2018 do Conselho Nacional de Saúde, que orienta a implementação dos cuidados paliativos no Sistema Único de Saúde [3].
O impacto do câncer não se limita ao paciente. Os familiares frequentemente assumem papéis de cuidadores, enfrentando sobrecarga física, emocional e psicológica, especialmente quando os cuidados paliativos são necessários. Estudos demonstram que os cuidadores familiares podem apresentar sofrimento emocional, ansiedade, exaustão física, alterações na rotina e comprometimento da qualidade de vida em decorrência das demandas contínuas do cuidado e da progressão da doença [4]. Nesse sentido, o acolhimento aos familiares também deve ser compreendido como parte integrante do cuidado paliativo.
Nesse cenário, a enfermagem assume um papel central. Como ciência do cuidado, a enfermagem atua não apenas na assistência direta ao paciente, mas também no suporte integral aos familiares, promovendo acolhimento, escuta qualificada, orientação e apoio emocional. O enfermeiro é, muitas vezes, o profissional que permanece ao lado da família durante todo o processo de doença, agravamento e terminalidade, sendo responsável por minimizar o sofrimento, garantir a dignidade e fortalecer os vínculos entre paciente, família e equipe multiprofissional [5].
Além disso, a atuação da enfermagem no contexto dos cuidados paliativos deve estar pautada nos princípios da humanização, da ética e da empatia, elementos indispensáveis para lidar com a complexidade das emoções que envolvem o processo de morte e luto. Estudos apontam que a escuta ativa, o fornecimento de informações claras e o acompanhamento contínuo dos familiares são estratégias fundamentais para o fortalecimento da confiança na equipe e para a redução do sofrimento vivenciado no final da vida [6].
A escolha do tema justifica-se pela relevância social e profissional dos cuidados paliativos, especialmente no que se refere aos familiares de pacientes oncológicos, que frequentemente vivenciam situações de estresse, ansiedade e sobrecarga emocional [7]. Nesse contexto, o acolhimento familiar realizado pelo enfermeiro torna-se essencial, pois contribui para a redução do sofrimento, fortalecimento dos vínculos e melhoria da assistência prestada. Os cuidados paliativos, por sua vez, vão além do controle de sintomas físicos, abrangendo suporte psicossocial, comunicação efetiva e amparo emocional ao paciente e à família, promovendo qualidade de vida mesmo diante da terminalidade [8].
Além disso, compreender as necessidades dos familiares e as estratégias de acolhimento utilizadas pela enfermagem possibilita aprimorar a prática profissional, favorecendo uma assistência mais humanizada, empática e eficaz. Estudos recentes evidenciam que a atuação baseada em comunicação clara, escuta ativa e suporte contínuo contribui para minimizar o sofrimento emocional e prevenir o esgotamento dos cuidadores [4]. Apesar de sua importância, ainda há lacunas na literatura quanto à sistematização de práticas eficazes de acolhimento familiar no contexto oncológico brasileiro, o que reforça a necessidade desta pesquisa como forma de contribuir para o avanço científico, social e profissional
na área.
A questão que norteia a pesquisa: Como os familiares de pacientes oncológicos em cuidados paliativos percebem o acolhimento realizado pela equipe de enfermagem durante o processo de cuidado?
Diante do exposto, a hipótese que orienta esta pesquisa é a de que: O acolhimento realizado pela equipe de enfermagem constitui um elemento relevante na percepção dos familiares de pacientes oncológicos em cuidados paliativos durante o processo de cuidado?
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa. A pesquisa exploratória busca proporcionar maior familiaridade com o problema, tornando-o mais explícito e construindo hipóteses. Já a pesquisa descritiva visa a descrição das características de determinada população ou fenômeno [9].
O estudo foi realizado no município de médio porte no sul de Minas Gerais, localizado perto dos principais centros urbanos e econômicos, possui aproximadamente 78.913 habitantes [10].
A seleção dos participantes foi realizada por conveniência, após convivência em visitas domiciliares em campo de prática profissional, sendo composta por 10 familiares cuidadores de paciente oncológico, que estavam em cuidados paliativos. Os participantes foram selecionados de forma intencional, considerando-se a experiencia direta com o cuidado ao familiar em condições paliativas e 0oncológica e o aceitando de forma voluntária em participar da pesquisa.
Foi utilizada uma entrevista semiestruturada sobre cuidados paliativos e acolhimento familiar, com o objetivo de obter informações gerais e compreender previamente o contexto vivenciado pelos participantes. O instrumento de coleta de dados foi composto por 12 questões, sendo 10 objetivas e 2 discursivas.
As perguntas abordaram aspectos sociodemográficos dos participantes, o vínculo com o paciente, o tempo e o local de prestação dos cuidados, a existência de apoio durante o processo de cuidado e a identificação de quem o forneceu. Além disso, investigaram a percepção dos participantes quanto ao acolhimento oferecido pela equipe de enfermagem, a avaliação da experiência vivenciada nos cuidados paliativos, as principais dificuldades enfrentadas durante o processo de cuidado, os impactos emocionais decorrentes dessa experiência e os aspectos considerados mais importantes para que a equipe de saúde promova um acolhimento adequado aos familiares no contexto dos cuidados paliativos.
Os dados obtidos foram organizados e analisados com o auxilio programa Microsoft Excel, o que permitiu identificar a percepção, os sentimentos e as dificuldades relacionadas ao processo de cuidado, além de aspectos sobre o acolhimento pela equipe de enfermagem. Os resultados foram estruturados em tabelas e frequências simples, permitindo uma compreensão clara e direta das vivências e dados quantitativos atribuídos pelos participantes.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário UninCor, sob parecer nº 8.305.458 e CAAE 96113126.1.0000.0295. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo respeitados os princípios éticos estabelecidos pela Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024, que institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, bem como com as diretrizes éticas estabelecidas pela Resolução CNS nº 466/2012, para pesquisas na área da saúde, e pela Resolução CNS nº 510/2016, aplicável às ciências humanas e sociais, enquanto estiverem em vigor [11,12,13].
Os dados coletados possibilitaram compreender as vivências e necessidades dos participantes diante do processo de adoecimento e terminalidade, permitindo identificar aspectos relacionados à sobrecarga emocional e à importância do suporte humanizado oferecido pela enfermagem.
O perfil sociodemográfico dos 10 familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, bem como a distribuição do gênero encontra-se detalhado na tabela 1. O Observou-se predominância do sexo feminino, com 7 participantes (70%), enquanto 3 (30%) eram do sexo masculino.
Com o intuito de caracterizar o perfil dos participantes da pesquisa, foram analisadas as variáveis sociodemográficas, incluindo faixa etária e gênero. Os resultados encontram-se apresentados na tabela 1.
Tabela 1 – Variáveis sociodemográficas dos participantes da pesquisa, n = 10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Variáveis |
n |
% |
|
A Faixa Etária |
10 |
|
|
18 a 25 anos |
1 |
10% |
|
26 a 32 anos |
1 |
10% |
|
33 a 35 anos |
2 |
20% |
|
36 a 47 anos |
1 |
10% |
|
48 a 55 anos |
5 |
50% |
|
Gênero |
10 |
|
|
Feminino |
7 |
70% |
|
Masculino |
3 |
30% |
Fonte: Autores da pesquisa, 2026.
O primeiro conjunto de dados demonstra que a faixa etária predominante entre os participantes foi de 48 a 55 anos (50%). Em relação ao gênero, observou-se predominância do sexo feminino (70%).
Com o intuito de compreender o vínculo familiar existente entre os cuidadores e os pacientes em cuidados paliativos, foram analisados os graus de parentesco dos participantes. Conforme apresentados na tabela 2.
Tabela 2 – Informações sobre o vínculo do familiar cuidador com o paciente em cuidado paliativo, n=10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Resposta |
N |
% |
|
Familiares de primeiro grau (filhos, pais e cônjuges) |
6 |
60.0% |
|
Outros familiares (irmãos, sobrinhos, netos, entre outros) |
4 |
40.0% |
|
Total |
10 |
100.0% |
Fonte: Autores da pesquisa, 2026.
No que se refere ao vinculo dos cuidadores familiares com o paciente oncológico, observou-se que 60% dos participantes eram familiares de primeiro grau, enquanto 40% possuíam outro grau de parentesco.
Com o objetivo de caracterizar o período de atuação dos familiares no cuidado ao paciente em cuidados paliativos, foi analisado o tempo durante o qual os participantes exerceram a função de cuidador. Cujos resultados são apresentados na tabela 3.
Tabela 3 – Informações sobre o tempo de cuidado com o paciente, n=10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Período |
N |
% |
|
6 meses a 1 ano |
7 |
70.0% |
|
Mais de 3 anos |
3 |
30.0% |
|
Total |
10 |
100.0% |
Fonte: Autores da pesquisa, 2026.
Em relação ao tempo de cuidado com o paciente em cuidados paliativos, observou-se que 70% dos familiares desempenham essa função de 6 meses a 1 ano, enquanto 30% dos cuidados desempenham essa função a mais de 3 anos.
Com o intuito de identificar o recebimento de apoio emocional pelos familiares cuidadores durante o período de prestação de cuidados ao paciente, foram analisadas as respostas dos participantes acerca desse aspecto. Conforme apresentado na tabela 4.
Tabela 4 – Recebimento de apoio emocional durante o cuidado, n=10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Local |
N |
% |
|
Sim |
4 |
40.0% |
|
Não |
6 |
60.0% |
|
Total |
10 |
100.0% |
Fonte: Autores da pesquisa, 2026.
Em relação ao apoio emocional, observou-se que 60% dos familiares cuidadores não receberam apoio, enquanto 40% relataram ter recebido algum tipo de suporte emocional.
Com o objetivo de compreender a percepção dos familiares cuidadores acerca do apoio emocional fornecido pela equipe de enfermagem, foram analisadas as respostas dos participantes referentes a essa experiência. Como pode ser observado na tabela 5.
Tabela 5 – Percepção dos familiares quanto ao acolhimento pela equipe de enfermagem, n=10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Resposta |
N |
% |
|
Sempre |
4 |
40.0% |
|
As vezes |
3 |
30.0% |
|
Raramente |
2 |
20.0% |
|
Nunca |
1 |
10.0% |
|
Total |
10 |
100.0% |
Fonte: Autores da pesquisa,2026.
Os dados demonstram que 40% dos participantes relataram sentir-se sempre acolhidos pela equipe de enfermagem, enquanto 30% afirmaram sentir-se acolhidos apenas ás vezes. Além disso, 20% dos familiares referiram sentir-se raramente acolhidos e 10% relataram nunca ter recebido acolhimento da equipe.
Com o intuito de conhecer a avaliação dos familiares cuidadores sobre a experiência vivenciada durante o acompanhamento do paciente em cuidados paliativos, foram analisados os relatos dos participantes. Conforme descrito na tabela 6.
Tabela 6 – Avaliação da experiencia dos familiares ao acompanhar pacientes em cuidados paliativos, n=10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Resposta |
N |
% |
|
Dificil |
1 |
10.0% |
|
Muito dificil |
9 |
90.0% |
|
Total |
10 |
100.0% |
Fonte: Autores da pesquisa, 2026.
Os dados apontam que a experiência de acompanhar um familiar em cuidados paliativos foi considerada muito difícil por 90% dos participantes, enquanto 10% a classificaram como difícil.
Com o objetivo de identificar as principais dificuldades enfrentadas pelos familiares durante o processo de cuidado ao paciente em cuidados paliativos, foram analisados os relatos dos participantes. Conforme demonstrado na Tabela 7.
Tabela 7 – Dificuldades enfrentadas pelos familiares durante o cuidado ao paciente em cuidados paliativos, n=10, Três Corações, Minas Gerais, Brasil, 2026.
|
Resposta |
N |
% |
|
Cansaço físico |
10 |
100% |
|
Sobrecarga emocional |
10 |
100% |
|
Sentimentos de impotência diante da situação |
10 |
100% |
|
Medo da Evoluçao da doença |
9 |
90% |
|
Falta de informação sobre a doença |
8 |
80% |
|
Dificuldades financeiras |
5 |
50% |
Fonte: Autores da pesquisa, 2026.
Os resultados demonstram que todos os participantes (100%) relataram cansaço físico, sobrecarga emocional e sentimento de impotência diante da situação vivenciada. Além disso, 90% mencionaram medo da evolução da doença, enquanto 80% apontaram falta de informações sobre o quadro clínico do paciente. As dificuldades financeiras foram relatadas por 50% dos entrevistados.
Participaram da pesquisa 10 familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. No perfil sociodemográfico avaliado, constatou-se a predominância absoluta do sexo feminino (70%), de familiares com vínculo afetivo e parental de primeiro grau (60%), além de um tempo de cuidado prevalecente estipulado entre seis meses e um ano (70%). Essa marcante centralização do papel do cuidar na figura feminina e em parentes de alta proximidade consubstancia os achados reportados na revisão integrativa de [8], que discute as construções históricas, sociais e de gênero imbricadas no ato de assumir a assistência direta de um doente no ambiente doméstico. Ademais, a relevância temporal da assistência prestada (seis meses a um ano) e o estreito grau de parentesco alinham-se expressamente às evidências apontadas pela revisão de [6], ressaltando que o adoecimento oncológico convoca o núcleo familiar primário para o gerenciamento do cuidado continuado, o que culmina no acúmulo gradual de funções e no comprometimento da qualidade de vida ao longo dos meses.
No que tange à percepção do acolhimento ofertado pela equipe de enfermagem, identificou-se que apenas 40% dos participantes relataram sentir-se sempre acolhidos, enquanto os demais dividiram-se em respostas intermitentes ou negativas: acolhidos apenas às vezes (30%), raramente (20%) ou nunca (10%). Tais achados descortinam fragilidades importantes na assistência de enfermagem e dialogam diretamente com a revisão de [8], a qual sinaliza a permanência de lacunas no preparo, recepção e suporte instrumental dado aos cuidadores no cenário paliativo brasileiro. Essa distribuição de avaliações insatisfatórias valida as premissas essenciais estabelecidas pelo referencial de Comunicação em Cuidados Paliativos trazido pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos [14], enfatizando que o verdadeiro acolhimento não se restringe a intervenções puramente técnicas, mas depende obrigatoriamente de uma postura relacional e humanizada que compreenda a família como unidade de cuidado.
A experiência geral de acompanhar o ente querido sob cuidados paliativos foi qualificada como muito difícil por 90% dos entrevistados e difícil por 10%, inexistindo menções a uma vivência moderada ou tranquila. Esse cenário de extrema vulnerabilidade encontra estreito eco no estudo de [7], que identificaram a severa sobrecarga emocional e o desgaste psicológico compulsório que acometem os familiares cuidadores de pacientes oncológicos nessa etapa de terminalidade. Paralelamente, as profundas repercussões cotidianas e o sofrimento desencadeado pela iminência da perda e acompanhamento do processo de finitude convergem diretamente com as discussões propostas por [15], ratificando que a terminalidade impõe barreiras estressoras de alta magnitude, desestruturando a integridade psíquica e a dinâmica de vida de quem cuida.
Entre as dificuldades mais proeminentes manifestadas na amostra, destacaram-se o cansaço físico, a sobrecarga emocional e o sentimento de impotência, citados por 100% dos investigados, além do medo da progressão da enfermidade (90%), a falta de informações clínicas (80%) e prejuízos econômicos (50%). Esse panorama multifacetado de vulnerabilidades corrobora as conclusões tecidas por [8], especificamente na identificação de que o impacto emocional e a desinformação técnica atuam como vetores que potencializam a ansiedade crônica e a desamparabilidade da família. Complementarmente, a coexistência da exaustão física decorrente da jornada exaustiva e das restrições financeiras geradas pela dedicação integral ao paciente encontra amparo teórico na revisão de [6], evidenciando o impacto multidimensional e sistêmico exercido pela oncologia avançada sobre o provedor do cuidado.
Diante do contexto analítico, resta evidente que a enfermagem desempenha papel basilar na concretização de um cuidado genuinamente humanizado e integral, devendo estender suas ações terapêuticas para além do controle sintomático do paciente clínico. Em conformidade com o preconizado por [8], a equipe de enfermagem necessita atuar como um elo de suporte emocional contínuo e educação em saúde, mitigando ativamente o isolamento social experimentado pelo cuidador. Para tanto, e em total consonância com as diretrizes de Comunicação em Cuidados Paliativos fundamentadas pela [14], faz-se imperioso o fortalecimento de estratégias assistenciais ancoradas na escuta qualificada, no desenvolvimento de empatia mútua e na transmissão de informações prognósticas acessíveis e transparentes, capacitando a família para o ato de cuidar enquanto se previne o colapso de sua própria saúde.
Os resultados deste estudo evidenciaram que os familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos enfrentam profundas repercussões emocionais, físicas e sociais. A sobrecarga emocional, o cansaço físico, o sentimento de impotência e a carência de informações precisas sobre a progressão da doença figuraram como os principais desafios enfrentados por este grupo.
Observou-se que, apesar de relatos pontuais de acolhimento, ainda persistem fragilidades na comunicação entre a equipe de enfermagem e os familiares. A demanda por orientações claras acerca do quadro clínico revela que a comunicação efetiva é, de fato, um componente indissociável da assistência humanizada e uma necessidade premente desses cuidadores.
Diante desses achados, reafirma-se a posição da enfermagem como elo fundamental na promoção de um cuidado que transcenda o paciente, estendendo-se à rede de apoio familiar. Torna-se imprescindível que os serviços de saúde implementem estratégias de educação permanente e suporte psicossocial, visando minimizar o desgaste desse cuidador e fortalecer o cuidado integral e humanizado.
Além disso, os resultados evidenciam a necessidade de maior valorização do cuidador familiar no contexto dos cuidados paliativos, considerando que este desempenha papel fundamental na assistência ao paciente e frequentemente vivencia sofrimento emocional, desgaste físico e mudanças significativas em sua rotina. Reconhecer suas necessidades e oferecer suporte adequado constitui uma estratégia essencial para a promoção de um cuidado verdadeiramente integral e humanizado.
Embora o estudo apresente limitações quanto ao recorte amostral e à abrangência geográfica, os dados obtidos fornecem subsídios importantes para a reflexão sobre a prática assistencial. Espera-se que este trabalho contribua para fomentar ações que garantam um acolhimento mais efetivo e sensível às necessidades daqueles que compartilham o fardo do adoecimento oncológico.
Conflitos de Interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse de qualquer natureza.
Fontes de financiamento
Não houve financiamento.
Contribuição dos autores
Concepção e desenho da pesquisa: Silva LSA, Quintiliano GLN, Silva PKA; Coleta de dados: Silva LSA; Análise e interpretação dos dados: Silva LSA, Quintiliano GLN, Silva PKA, Mariano M, Ramires ACN; Análise estatística: Silva LSA, Quintiliano GLN, Silva PKA, Mariano M, Ramires ACN; Redação do manuscrito: Silva LSA, Quintiliano GLN, Silva PKA Mariano M, Ramires ACN; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Silva LSA, Quintiliano GLN, Silva PKA, Mariano M, Ramires ACN.
Declaração sobre o Uso de Inteligência Artificial
Os autores declaram que utilizaram a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI) como apoio na revisão textual, organização estrutural do manuscrito, correção gramatical e aprimoramento da redação acadêmica. Todas as informações, análises, interpretações dos resultados, conclusões e decisões científicas apresentadas neste trabalho foram revisadas e validadas pelos autores, que assumem integral responsabilidade pelo conteúdo final do manuscrito.
Referências
1. World Health Organization. Cancer [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2022 [citado 2025 ago 25]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/cancer.
2. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; 2023 [citado 2025 ago 25]. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/livros/estimativa-2023-incidencia-de-cancer-no-brasil.
3. Brasil. Ministério da Saúde. Resolução nº 41, de 31 de outubro de 2018. Dispõe sobre as diretrizes para a organização dos cuidados paliativos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2018 [citado 2025 out 27]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/resolucao-no-41-de-31-de-outubro-de-2018/.
4. Vale JMM, et al. Sobrecarga dos cuidadores familiares de adoecidos por câncer em cuidados paliativos [Internet]. Cogitare Enferm. 2023;28:e89726 [citado 2025 ago 25]. Disponível em: https://doi.org/10.1590/ce.v28i0.89726.
5. Alves LAB, et al. A percepção dos sentimentos dos familiares de pacientes em cuidados paliativos: revisão integrativa [Internet]. Ver Nursing. 2025;28(320):1319-23 [citado 2025 set 15]. Disponível em: https://www.revistanursing.com.br/index.php/revistanursing/article/view/3305.
6. Panisi MEL, et al. A perspectiva dos familiares frente aos pacientes em cuidados paliativos: uma revisão integrativa [Internet]. Ver Educ Saúde. 2022;10(2):306-20 [citado 2025 ago 30]. Disponível em: https://periodicos.unievangelica.edu.br/index.php/educacaoemsaude/article/view/7742.
7. Silva ARF, et al. Caregiver overload and factors associated with care provided to patients under palliative care [Internet]. Investig Educ Enferm. 2021;39(1):e10 [citado 2025 out 21]. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7987288/.
8. Moraes ACSG, et al. Necessidades de familiares cuidadores e atuação do enfermeiro nos cuidados paliativos oncológicos: revisão integrativa da literatura [Internet]. Ver Bras Cancerol. 2024;70(2) [citado 2025 set 12]. Disponível em: https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/4560.
9. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. [Internet]. 7. Ed. São Paulo: Atlas; 2017 [citado 2025 set 12]. Disponível em: https://grupos.moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1290019/mod_resource/content/1/Metodos%20e%20tecnicas%20pesquisa%20social%20-%20Antonio%20carlos%20Gil.pdf.
10. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estimativas da população residente nos municípios brasileiros para 2018 [Internet]. Rio de Janeiro: IBGE; 2018 [citado 2025 out 27]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao.
11. Brasil. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a constituição do Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos e sobre as condições para a realização de pesquisas envolvendo seres humanos [Internet]. Brasília (DF): Diário Oficial da União; 2024 maio 28 [citado 2025 nov 3]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14874.htm.
12. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos [Internet]. Brasília (DF): Diário Oficial da União; 2012 dez 12 [citado 2025 nov 3]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html.
13. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais [Internet]. Brasília (DF): Diário Oficial da União; 2016 abr 7 [citado 2025 nov 3]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2016/res0510_07_04_2016.html.
14. Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de cuidados paliativos ANCP. 3. [Internet]. Ed. Rio de Janeiro: ANCP; 2021. [citado 2025 nov 3]. Disponível em: https://biblioteca.cofen.gov.br/wp-content/uploads/2017/05/Manual-de-cuidados-paliativos-ANCP.pdf.
15. Rezende G, Santos I, Souza ER, Silva RM. Atuação da equipe de Enfermagem sob a ótica de familiares de pacientes em cuidados paliativos. [Internet]. REME Ver Min Enferm. 2016;20:e983. [citado 2025 nov 3]. Disponível em: https://share.google/6tpkFdpiY83LtQCLj.