Enferm Bras. 2026;25(3):3269-3281
doi: 10.62827/eb.v25i3.4224

ARTIGO ORIGINAL

Desafios na prática de enfermeiros em Hospitais Filantrópicos: Realidade do Sul de Minas Gerais

Lorena Stork Nonato1, Caroline Foster Medeiros1

1Centro Universitário UninCor, Três Corações, MG, Brasil

Recebido em: 9 de Junho de 2026; Aceito em: 16 de Junho de 2026.

Correspondência: Lorena Stork Nonato, lostork@outlook.com

Como citar

Nonato LS, Medeiros CF. Desafios na prática de enfermeiros em Hospitais Filantrópicos: Realidade do Sul de Minas Gerais. Enferm Bras. 2026;25(3):3269-3281 doi: 10.62827/eb.v25i3.4224.

Resumo

Introdução: Os hospitais filantrópicos desempenham papel fundamental na assistência à saúde no Brasil, especialmente em regiões do interior, onde muitas vezes representam o principal ou único serviço hospitalar disponível para a população. Nesse cenário, a atuação do enfermeiro torna-se essencial para a organização do cuidado, segurança do paciente e coordenação das equipes de saúde. Objetivo: Compreender os principais desafios enfrentados por enfermeiros atuantes em hospitais filantrópicos do Sul de Minas Gerais e seus impactos na qualidade da assistência prestada e no bem-estar profissional. Métodos: Pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória, realizada em um hospital filantrópico da região. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas com cinco enfermeiros da instituição, permitindo compreender suas experiências, percepções e dificuldades enfrentadas. Resultados: Os principais desafios identificados foram a escassez de recursos humanos e materiais, elevada demanda assistencial, sobrecarga de trabalho e limitações institucionais. Os participantes destacaram a importância da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) para a organização do cuidado e segurança do paciente, embora relatem dificuldades na realização dos registros devido à falta de tempo e excesso de atividades. Também foram observadas fragilidades relacionadas à capacitação profissional e ao suporte institucional. Conclusão: Conclui-se que os enfermeiros enfrentam desafios que impactam a qualidade da assistência e o bem-estar profissional, destacando-se a escassez de recursos, a sobrecarga de trabalho, as dificuldades na operacionalização da SAE e as fragilidades na educação permanente. Apesar disso, demonstram compromisso com a segurança do paciente e a humanização do cuidado.

Palavras-chave: Enfermagem; Hospitais Filantrópicos; Assistência de Enfermagem; Condições de Trabalho; Segurança do Paciente.

Challenges in the practice of nurses in Philanthropic Hospitals: The reality of southern Minas Gerais

Abstract

Introduction: Philanthropic hospitals play a fundamental role in healthcare in Brazil, especially in inland regions, where they often represent the main or only hospital service available to the population. In this scenario, the nurse’s role becomes essential for the organization of care, patient safety, and coordination of healthcare teams. Objective: To understand the main challenges faced by nurses working in philanthropic hospitals in southern Minas Gerais and their impacts on the quality of care provided and professional well-being. Methods: Qualitative, descriptive, and exploratory research, conducted in a philanthropic hospital in the region. Data collection occurred through semi-structured interviews with five nurses from the institution, allowing for an understanding of their experiences, perceptions, and difficulties faced. Results: The main challenges identified were the scarcity of human and material resources, high care demand, work overload, and institutional limitations. Participants highlighted the importance of the Nursing Care Systematization (SAE) for the organization of care and patient safety, although they reported difficulties in making records due to lack of time and excessive activities. Weaknesses related to professional training and institutional support were also observed. Conclusion: It is concluded that nurses face challenges that impact the quality of care and professional well-being, highlighting the scarcity of resources, work overload, difficulties in operationalizing the SAE, and weaknesses in continuing education. Despite this, they demonstrate commitment to patient safety and the humanization of care.

Keywords: Nursing; Voluntary; Nursing Care; Working Conditions; Patient Safety.

Desafíos en la práctica de enfermería en Hospitales Filantrópicos: La realidad del sur de Minas Gerais

Resumen

Introducción: Los hospitales filantrópicos desempeñan un papel fundamental en la atención sanitaria en Brasil, especialmente en las regiones del interior, donde a menudo representan el principal o único servicio hospitalario disponible para la población. En este contexto, el rol de la enfermera se vuelve esencial para la organización de la atención, la seguridad del paciente y la coordinación de los equipos de atención sanitaria. Objetivo: Comprender los principales desafíos que enfrentan las enfermeras que trabajan en hospitales filantrópicos en el sur de Minas Gerais y su impacto en la calidad de la atención brindada y el bienestar profesional. Métodos: Investigación cualitativa, descriptiva y exploratoria, realizada en un hospital filantrópico de la región. La recolección de datos se realizó mediante entrevistas semiestructuradas con cinco enfermeras de la institución, lo que permitió comprender sus experiencias, percepciones y dificultades. Resultados: Los principales desafíos identificados fueron la escasez de recursos humanos y materiales, la alta demanda de atención, la sobrecarga de trabajo y las limitaciones institucionales. Las participantes destacaron la importancia de la Sistematización de Cuidados de Enfermería (SAE) para la organización de la atención y la seguridad del paciente, aunque reportaron dificultades para realizar registros debido a la falta de tiempo y la sobrecarga de actividades. También se observaron deficiencias relacionadas con la formación profesional y el apoyo institucional. Conclusión: Se concluye que las enfermeras enfrentan desafíos que impactan la calidad de la atención y el bienestar profesional, destacando la escasez de recursos, la sobrecarga de trabajo, las dificultades para operacionalizar la SAE y las deficiencias en la formación continua. A pesar de ello, demuestran compromiso con la seguridad del paciente y la humanización de la atención.

Palabras-clave: Enfermería; Hospitales Filantrópicos; Atención de Enfermería; Condiciones de Trabajo; Seguridad del Paciente.

Introdução

Os hospitais filantrópicos desempenham um papel indispensável na estrutura da saúde brasileira, especialmente em regiões do interior, como o Sul de Minas Gerais. Essas instituições respondem por parcela significativa das internações, leitos e procedimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, em muitos municípios brasileiros, constituem a única alternativa de assistência hospitalar disponível à população. No contexto nacional, os hospitais filantrópicos representam uma das principais redes hospitalares do país, sendo responsáveis por parcela expressiva das internações, atendimentos e procedimentos especializados realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de desempenharem papel fundamental na oferta de serviços de média e alta complexidade [1].

Esses hospitais, especialmente em regiões de menor cobertura pública, como o Sul de Minas Gerais. Dados da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB) indicam que essas instituições respondem por cerca de 25% do total de hospitais do país, sendo responsáveis por mais de 61% das internações de alta complexidade, 67% dos atendimentos oncológicos, 65% das cirurgias cardíacas e 60% dos transplantes de órgãos realizados pelo SUS [2]. Ainda segundo o autor, representam um pilar indispensável para a garantia do acesso universal e equânime à saúde, conforme previsto pela Constituição Federal de 1988.

Nesse cenário, a atuação da equipe de enfermagem se torna ainda mais central, já que o enfermeiro assume a responsabilidade direta pela organização do cuidado, pela segurança do paciente e pela coordenação das atividades da equipe. Entretanto, a realidade dos hospitais filantrópicos impõe desafios diários, como carga elevada de trabalho, falta de insumos, equipes reduzidas e necessidade constante de adaptação às demandas da instituição. Pesquisas realizadas em hospitais filantrópicos mineiros mostram que essas dificuldades interferem na qualidade da assistência, exigindo que o enfermeiro desenvolva estratégias de enfrentamento para manter um cuidado seguro e contínuo [3].

Atualmente, a enfermagem representa a maior categoria profissional da saúde no Brasil, com mais de 3 milhões de profissionais ativos [3]. Essa força de trabalho atua em todos os níveis de atenção, da Atenção Primária aos serviços de alta complexidade, desempenhando papel essencial na provisão do cuidado e na organização das ações de saúde no país [4].

Além disso, o trabalho da enfermagem nesses ambientes envolve lidar com rotinas intensas, alta rotatividade e situações emocionalmente desgastantes. Estudos apontam que a sobrecarga e a falta de suporte institucional contribuem para estresse, adoecimento emocional e sensação de esgotamento entre os profissionais [5]. Esses fatores também impactam diretamente a implementação de práticas essenciais, como a documentação da assistência e a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), que muitas vezes são prejudicadas pela falta de tempo e estrutura adequada [6].

A relevância desse tema foi recentemente reforçada pela instituição da Política Nacional de Qualidade e Segurança do Paciente (PNQSP), por meio da Portaria GM/MS nº 11.527, de 9 de junho de 2026. A política estabelece diretrizes para a promoção do cuidado seguro, de qualidade e centrado na pessoa em todos os níveis de atenção à saúde, incluindo os hospitais filantrópicos que integram a rede do Sistema Único de Saúde. Entre seus princípios, destacam-se o fortalecimento da cultura de segurança, a prevenção de danos evitáveis, a gestão de riscos e a integração da educação permanente às estratégias de qualificação da assistência, reforçando a importância da atuação da enfermagem na promoção de práticas seguras e na melhoria contínua da qualidade do cuidado [7].

Pesquisas realizadas em hospitais filantrópicos de Minas Gerais mostram que a cultura de segurança ainda enfrenta fragilidades importantes, o que coloca sobre o enfermeiro uma responsabilidade ainda maior na identificação de riscos, prevenção de eventos adversos e fortalecimento de práticas seguras no cuidado [8].

Estudos nacionais têm demonstrado que os profissionais de enfermagem frequentemente atuam em contextos marcados por sobrecarga de trabalho, dimensionamento insuficiente de pessoal e limitações estruturais, fatores associados ao aumento do desgaste físico e emocional, comprometimento da qualidade assistencial e maior risco de eventos adversos [9]. Nos hospitais filantrópicos, tais desafios podem ser potencializados pelas restrições financeiras enfrentadas por essas instituições, que desempenham papel estratégico na assistência hospitalar brasileira e na oferta de serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS) [10]. Nesse contexto, compreender a realidade vivenciada pelos enfermeiros torna-se fundamental para subsidiar estratégias de gestão, qualificação da assistência e fortalecimento das condições de trabalho desses profissionais.

Diante disso, este estudo busca responder à seguinte pergunta norteadora: Quais são os principais desafios enfrentados pelos enfermeiros em hospitais filantrópicos no Sul de Minas Gerais e como esses desafios impactam a qualidade da assistência prestada?

Com o objetivo de compreender os principais desafios enfrentados por enfermeiros atuantes em hospitais filantrópicos do Sul de Minas Gerais e seus impactos na qualidade da assistência prestada e no bem-estar profissional.

Métodos

Este estudo adotou uma abordagem qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, com o objetivo de compreender os desafios enfrentados por enfermeiros em hospitais filantrópicos do Sul de Minas Gerais. A escolha desse método ocorreu por permitir a análise das experiências e percepções dos profissionais, que não podem ser quantificadas, sendo interpretadas a partir de suas falas e vivências [11].

A pesquisa foi realizada em um hospital filantrópico de pequeno porte localizado em uma cidade da região Sul de Minas Gerais, com aproximadamente 7.062 habitantes e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,683 [12]. A instituição possui 20 leitos de internação, presta assistência em clínica médica, urgência e emergência e realiza atendimento predominantemente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O hospital desempenha papel fundamental na assistência à população local, constituindo-se como principal referência hospitalar do município.

A coleta de dados foi realizada pela própria pesquisadora, por meio de entrevistas semiestruturadas com cinco enfermeiros da instituição. Foram incluídos todos os enfermeiros atuantes no hospital durante o período da coleta de dados que atenderam aos critérios de inclusão e aceitaram participar voluntariamente da pesquisa, correspondendo à totalidade dos profissionais da categoria na instituição. As entrevistas foram compostas por doze perguntas abertas, elaboradas com base nos objetivos do estudo e na literatura relacionada ao tema, abordando desafios da rotina profissional, gestão de recursos, relacionamento com a equipe e experiência no cuidado ao paciente. Mediante autorização dos participantes, as entrevistas foram transcritas integralmente para análise.

Os critérios de inclusão abrangeram enfermeiros atuantes no hospital filantrópico do Sul de Minas Gerais, com no mínimo seis meses de experiência na instituição, que aceitaram participar voluntariamente da pesquisa.

A análise dos dados seguiu a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin [13], organizada em três etapas: pré-análise, exploração do material e interpretação dos resultados. Inicialmente, realizou-se leitura flutuante para familiarização com o conteúdo. Em seguida, os dados foram codificados em unidades de significado, permitindo a construção de categorias temáticas. Por fim, procedeu-se à interpretação dos dados, identificando os principais desafios enfrentados pelos enfermeiros, considerando aspectos estruturais, organizacionais e emocionais da prática profissional.

A pesquisa foi conduzida em conformidade com a Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024 [14], bem como com as diretrizes éticas estabelecidas pelas Resoluções do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012 [15] e nº 510/2016 [16]. Os participantes tiveram sua autonomia respeitada, com garantia de consentimento livre e esclarecido, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário UninCor, liberada conforme parecer n. 8.305.473, CAAE n. 96359626.6.0000.0295, antes do início da coleta de dados.

Resultados

Foram entrevistados cinco enfermeiros atuantes em um hospital filantrópico do Sul de Minas Gerais. Os participantes possuíam idade entre 31 e 61 anos, sendo quatro do sexo feminino e um do sexo masculino. O tempo de formação profissional variou entre 2 e 38 anos, enquanto o tempo de atuação na instituição oscilou entre 7 meses e 38 anos. As características sociodemográficas e profissionais dos participantes estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1 – Características sociodemográficas e profissionais dos enfermeiros participantes do estudo. Sul de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil, 2026.

Participante

Sexo

Idade

Tempo de formação

Tempo na instituição

E1

Masculino

33 anos

5 anos

2 anos

E2

Feminino

61 anos

38 anos

38 anos

E3

Feminino

43 anos

26 anos

10 anos

E4

Feminino

52 anos

26 anos

7 meses

E5

Feminino

31 anos

2 anos

1 ano e 6 meses

Fonte: Dados da pesquisa, 2026.

Os participantes relataram uma rotina caracterizada por elevada demanda assistencial, múltiplas atribuições gerenciais e assistenciais e necessidade constante de tomada de decisões. As atividades mais frequentemente citadas incluíram passagem de plantão, avaliação dos pacientes, supervisão da equipe de enfermagem, organização do setor, monitoramento de prontuários, controle de recursos e articulação com a equipe multiprofissional.

“Plantões intensos, com muitos pacientes e poucos profissionais, realizando cuidados desde a urgência até a internação com recursos limitados.” (E1)

Observou-se que alguns profissionais descreveram a rotina como intensa, cansativa e, em determinados momentos, insatisfatória, especialmente devido à sobrecarga de trabalho e à limitação de recursos humanos.

Entre os desafios mais citados destacaram-se a escassez de recursos materiais, a insuficiência de profissionais, a alta demanda de pacientes e a necessidade de decisões rápidas diante de situações críticas. Também foram mencionadas dificuldades relacionadas à adesão aos protocolos institucionais, resistência de membros da equipe durante processos decisórios e comunicação com familiares em momentos delicados.

“A alta demanda de pacientes, a necessidade de decisões rápidas, o cuidado com pacientes em estado crítico e a comunicação com os familiares em situações delicadas são desafios constantes.” (E3)

“Nosso hospital enfrenta limitações de recursos financeiros e muitas vezes uma alta demanda de atendimentos pelo SUS.” (E4)

Esses achados evidenciam que os desafios enfrentados pelos enfermeiros envolvem tanto fatores estruturais quanto aspectos relacionados à gestão de pessoas e organização do trabalho.

Houve consenso entre os participantes de que a escassez de recursos interfere negativamente na qualidade da assistência. Os relatos apontaram aumento da sobrecarga da equipe, maior risco de falhas assistenciais, comprometimento da segurança do paciente, dificuldades para humanização do cuidado e possibilidade de atrasos nos atendimentos.

“A escassez de recursos leva a instituição a racionalizar o atendimento, resultando em falhas no cuidado com o paciente e afetando sua segurança.” (E4)

Além disso, alguns entrevistados relacionaram a limitação de recursos ao aumento de eventos adversos e à necessidade de racionalização da assistência, situação frequentemente observada em instituições filantrópicas que enfrentam restrições financeiras.

Todos os participantes reconheceram a relevância da SAE para a organização do trabalho do enfermeiro. Os entrevistados destacaram que a sistematização favorece o planejamento do cuidado, a individualização da assistência, a segurança do paciente e a redução de erros relacionados à medicação e aos procedimentos.

“A SAE organiza e qualifica a assistência de enfermagem, garantindo um cuidado individualizado baseado em evidências.” (E2)

Entretanto, alguns profissionais apontaram que a efetividade da SAE depende do comprometimento de toda a equipe e da valorização institucional desse processo.

As principais dificuldades mencionadas envolveram falta de tempo devido à alta demanda assistencial, excesso de atividades administrativas, registros repetitivos, ausência de feedback sobre as informações registradas e desvalorização da documentação de enfermagem.

“O tempo é reduzido devido à alta demanda e à necessidade de realizar diversos registros.” (E2)

Os relatos sugerem que a sobrecarga de trabalho pode comprometer a qualidade dos registros, favorecendo anotações incompletas ou realizadas de forma apressada.

Os resultados demonstraram percepções distintas sobre o suporte oferecido pela instituição. Alguns profissionais relataram apoio por meio de reuniões, treinamentos, diálogo com a equipe e participação multiprofissional na tomada de decisões. Outros consideraram esse suporte limitado, destacando a necessidade de comitês de ética, protocolos atualizados, rodas de conversa e apoio psicológico aos trabalhadores.

“Poderia haver comitê de ética, rodas de conversa para discussão de casos, protocolos institucionais atualizados e apoio psicológico.” (E1)

“O suporte ainda é limitado, sendo necessário que a equipe se apoie na experiência profissional e no diálogo entre os colegas.” (E2)

Os entrevistados relataram diferentes estratégias para lidar com períodos de maior demanda assistencial, incluindo priorização dos casos mais graves, utilização de protocolos de classificação de risco, redistribuição de tarefas, escalas de dobra, banco de horas e divisão equilibrada das atividades entre os profissionais.

“A equipe se organiza de forma equilibrada, com divisão adequada das atividades e priorização dos cuidados conforme a necessidade dos pacientes.” (E2)

Essas estratégias demonstram a busca constante pela manutenção da qualidade assistencial mesmo diante de limitações estruturais.

Discussão

Os resultados deste estudo evidenciaram que a atuação dos enfermeiros em um hospital filantrópico do Sul de Minas Gerais é permeada por desafios relacionados à elevada demanda assistencial, limitações de recursos humanos e materiais, sobrecarga de trabalho e necessidade constante de tomada de decisões. Tais achados corroboram a literatura que descreve o trabalho do enfermeiro como uma atividade complexa, que envolve simultaneamente funções assistenciais, gerenciais, educativas e administrativas [17].

A rotina relatada pelos participantes demonstrou intensa carga de trabalho, contemplando atividades como supervisão da equipe, gerenciamento de recursos, avaliação dos pacientes e articulação multiprofissional. As transformações na gestão dos serviços de saúde têm ampliado as responsabilidades dos enfermeiros, exigindo maior capacidade de organização, planejamento e tomada de decisão frente às demandas institucionais [5].

Entre os principais desafios apontados pelos entrevistados destacaram-se a escassez de recursos materiais, insuficiência de profissionais e elevada demanda de pacientes. Esses resultados são compatíveis com estudos que identificaram relação direta entre disponibilidade de recursos humanos e eficiência dos serviços hospitalares [18].

Em hospitais filantrópicos, tais dificuldades podem ser ainda mais expressivas devido às limitações financeiras enfrentadas por essas instituições. Dados nacionais demonstram que os hospitais filantrópicos são responsáveis por 61% das internações de alta complexidade realizadas pelo Sistema Único de Saúde, evidenciando sua relevância para a assistência à população e, simultaneamente, a necessidade de suporte adequado para manutenção da qualidade dos serviços [2].

A escassez de recursos foi apontada pelos enfermeiros como fator capaz de comprometer a qualidade da assistência, aumentar a sobrecarga da equipe e dificultar a humanização do cuidado. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos realizados em instituições filantrópicas, os quais identificaram que condições inadequadas de trabalho podem gerar impactos negativos tanto para os profissionais quanto para a segurança dos pacientes [19].

Esse cenário não pode ser compreendido apenas como resultado de dificuldades operacionais locais, mas também de fatores estruturais que historicamente afetam os hospitais filantrópicos brasileiros. Essas instituições desempenham papel fundamental na assistência hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na oferta de serviços de média e alta complexidade, porém enfrentam desafios relacionados à sustentabilidade financeira, decorrentes, entre outros fatores, da insuficiência dos repasses destinados ao custeio dos serviços prestados e da defasagem dos valores de remuneração praticados pelo sistema público de saúde [20]. Assim, compreender a realidade vivenciada pelos enfermeiros torna-se fundamental para subsidiar estratégias de gestão, qualificação da assistência e fortalecimento das condições de trabalho desses profissionais.

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) foi reconhecida pelos participantes como ferramenta essencial para a organização do cuidado, individualização da assistência e promoção da segurança do paciente. Os entrevistados relataram que a SAE contribui para a redução de erros, qualificação dos registros e planejamento das ações assistenciais. Esses achados reforçam o entendimento de que a sistematização constitui um importante instrumento para o fortalecimento da autonomia profissional e para a melhoria da qualidade da assistência prestada [21].

Entretanto, os profissionais também apontaram dificuldades relacionadas à documentação do processo de enfermagem, especialmente em razão da falta de tempo, excesso de atividades administrativas e baixa valorização dos registros. Tais resultados corroboram estudos realizados em hospitais filantrópicos do Sul de Minas Gerais, que identificaram a sobrecarga de trabalho e as dificuldades operacionais como fatores que interferem diretamente na qualidade da documentação de enfermagem [21,3]. A fragilidade dos registros pode comprometer a continuidade do cuidado, a comunicação entre os profissionais e a segurança do paciente.

Em relação ao suporte institucional para situações éticas complexas, observou-se divergência entre os participantes. Enquanto alguns relataram apoio por meio da atuação multiprofissional e de treinamentos, outros apontaram a necessidade de maior suporte institucional, incluindo comitês de ética, protocolos atualizados e apoio psicológico. Os dilemas éticos presentes na assistência à saúde exigem espaços de discussão coletiva, apoio institucional e processos decisórios compartilhados [22]. Além disso, o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem estabelece a responsabilidade das instituições em promover condições adequadas para o exercício ético da profissão [23].

Quanto à organização da equipe frente à alta demanda assistencial, os entrevistados relataram estratégias como classificação de risco, redistribuição de tarefas, utilização de banco de horas, escalas de dobra e priorização dos casos mais graves. Esses achados evidenciam a capacidade adaptativa dos profissionais diante das limitações institucionais e reforçam a importância da tomada de decisão como competência essencial do enfermeiro hospitalar [24].

A maioria dos participantes demonstrou insatisfação em relação às oportunidades de capacitação oferecidas pela instituição. Muitos relataram buscar atualização profissional por iniciativa própria, o que evidencia fragilidades na política institucional de educação permanente. A capacitação continuada é fundamental para a qualificação da assistência em saúde, contribuindo para a atualização profissional, incorporação de novas tecnologias e adoção de práticas assistenciais mais seguras e eficientes [25].

No que se refere ao estresse ocupacional, os enfermeiros relataram utilizar estratégias como atividade física, espiritualidade, leitura, diálogo com colegas, planejamento das atividades e técnicas de respiração. Esses resultados encontram respaldo na literatura, que aponta a adoção de mecanismos individuais de enfrentamento como forma de minimizar os impactos psicológicos decorrentes da sobrecarga de trabalho. Condições laborais adversas estão associadas ao adoecimento mental dos profissionais de enfermagem, tornando essencial a implementação de ações institucionais voltadas à promoção da saúde do trabalhador [26]. De forma semelhante, estudos recentes ressaltam que o suporte emocional e psicológico constitui fator relevante para a prevenção do sofrimento psíquico entre profissionais que atuam em ambientes hospitalares [5].

A qualidade da assistência foi associada pelos participantes à segurança do paciente, cumprimento de protocolos, redução de complicações e alcance dos objetivos assistenciais. Essa percepção está alinhada aos resultados encontrados em estudos sobre cultura de segurança do paciente em hospitais filantrópicos, que identificaram forte relação entre segurança assistencial, qualidade do cuidado e atuação da equipe de enfermagem [8].

Por fim, os entrevistados destacaram a humanização do cuidado como elemento essencial para a qualidade da assistência, enfatizando acolhimento, comunicação efetiva, empatia e valorização dos profissionais. Além disso, sugeriram melhorias relacionadas à capacitação contínua, ampliação dos recursos institucionais, fortalecimento da comunicação entre gestão e equipe e implementação de ações voltadas ao bem-estar dos trabalhadores. Esses achados demonstram que a qualidade da assistência de enfermagem não depende apenas da competência técnica dos profissionais, mas também das condições organizacionais oferecidas pela instituição [15].

Dessa forma, os resultados deste estudo evidenciam que os enfermeiros de hospitais filantrópicos enfrentam desafios relacionados à escassez de recursos, sobrecarga de trabalho e limitações institucionais. Contudo, demonstram compromisso com a qualidade assistencial, reconhecendo a importância da SAE, da segurança do paciente e da humanização como pilares fundamentais para a prática profissional.

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A pesquisa foi realizada em uma única instituição hospitalar filantrópica do Sul de Minas Gerais, o que limita a transferibilidade dos achados para outros contextos assistenciais. Além disso, o número reduzido de participantes, embora compatível com a proposta qualitativa e com a saturação das informações obtidas, restringe a diversidade de experiências analisadas. Destaca-se ainda que os resultados refletem as percepções dos profissionais entrevistados em um contexto específico, podendo não representar a realidade de outros hospitais filantrópicos com diferentes características estruturais, organizacionais e regionais. Apesar dessas limitações, o estudo contribui para ampliar a compreensão dos desafios enfrentados pelos enfermeiros nesses serviços e oferece subsídios para futuras pesquisas e estratégias de aprimoramento da prática profissional.

Conclusão

Conclui-se que os enfermeiros atuantes no hospital filantrópico investigado desempenham papel fundamental na organização, coordenação e execução da assistência à saúde, sendo profissionais essenciais para a qualidade do cuidado prestado. Os resultados evidenciaram que a escassez de recursos materiais e humanos, a elevada demanda assistencial e a sobrecarga de trabalho constituem desafios presentes no cotidiano desses profissionais, influenciando suas condições de trabalho e a dinâmica assistencial.

Apesar das adversidades identificadas, observou-se elevado comprometimento dos enfermeiros com a segurança do paciente, a humanização do cuidado e a manutenção da qualidade da assistência. Nesse contexto, destaca-se a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) como importante ferramenta para a organização do processo de trabalho, favorecendo o planejamento das ações e a qualificação da assistência prestada.

Os achados deste estudo reforçam a importância de investimentos institucionais voltados à capacitação profissional, valorização da equipe de enfermagem, suporte aos trabalhadores e aprimoramento das condições organizacionais e estruturais do ambiente de trabalho, com potencial para contribuir para uma assistência mais segura e qualificada.

Por fim, recomenda-se a realização de novas pesquisas envolvendo diferentes instituições e contextos assistenciais, a fim de ampliar a compreensão sobre os desafios e potencialidades da atuação do enfermeiro em hospitais filantrópicos. Estudos com amostras mais amplas poderão aprofundar a análise de aspectos relacionados às condições de trabalho, à qualidade da assistência e à implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem nos serviços de saúde.

Conflitos de interesse

Sem conflitos de interesse.

Fontes de financiamento

Os autores declaram que a pesquisa foi financiada com recursos próprios.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Nonato LS; Medeiros CF; Coleta de dados: Nonato LS; Análise e interpretação dos dados: Nonato LS; Medeiros CF; Redação do manuscrito: Nonato LS; Medeiros CF; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual relevante: Nonato LS; Medeiros CF.

Declaração sobre o Uso de Inteligência Artificial

Os autores declaram que utilizaram a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI) como apoio na revisão textual, organização estrutural do manuscrito, correção gramatical e aprimoramento da redação acadêmica. Todas as informações, análises, interpretações dos resultados, conclusões e decisões científicas apresentadas neste trabalho foram revisadas e validadas pelos autores, que assumem integral responsabilidade pelo conteúdo final do manuscrito.

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