Enferm Bras. 2025;24(5): 2951-2964
doi: 10.62827/eb.v24i5.4104

REVISÃO

Letramento funcional em saúde como fator determinante da sobrecarga de cuidadores informais de pessoas idosas: uma revisão de literatura

Italo Everton Bezerra Barbosa1, Breno de Souza Mota1, Lethícia Maria Felix da Silva1, Enzo Henrique Silva Scariot1, Hellen Souza da Silva1, Karla Morais Ladeia1, Felipe Barreto Casatti1, Cintia de Oliveira Rocha1

1Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL), São Paulo, SP, Brasil

Recebido em: 11 de Dezembro de 2025; Aceito em: 6 de Fevereiro de 2026.

Correspondência: Italo Everton Bezerra Barbosa, italoeverton1998@gmail.com

Como citar

Barbosa IEB, Mota BS, Silva LMF, Scariot EHS, Silva HS, Ladeia KM, Casatti FB, Rocha CO. Letramento funcional em saúde como fator determinante da sobrecarga de cuidadores informais de pessoas idosas: uma revisão de literatura. Enferm Bras. 2025;24(5): 2951-2964 doi: 10.62827/eb.v24i5.4104

Resumo

Introdução: O acelerado envelhecimento populacional brasileiro tem ampliado a prevalência de condições crônicas e a dependência funcional, intensificando a demanda por cuidadores informais, geralmente desprovidos de formação técnica. Nesse contexto, o Letramento Funcional em Saúde (LFS) emerge como um determinante crítico para a qualidade do cuidado e para a modulação da sobrecarga desses cuidadores, influenciando diretamente a capacidade de interpretar informações clínicas, manejar terapias e tomar decisões seguras. Objetivo: Analisou-se como o Letramento Funcional em Saúde atua como fator determinante na sobrecarga de cuidadores informais de pessoas idosas, a partir de evidências disponíveis na literatura científica. Métodos: Revisão Integrativa da Literatura, conduzida a partir de um protocolo estruturado. A busca ocorreu em bases de dados nacionais e internacionais, utilizando descritores previamente estabelecidos. Após o processo de triagem, foram selecionados 10 estudos para compor a amostra final. Resultados: Os estudos evidenciam que cuidadores com baixo LFS apresentam maior vulnerabilidade à sobrecarga, dificuldades na compreensão de prescrições, insegurança no manejo terapêutico e menor adesão ao autocuidado. Fatores como baixa escolaridade, renda reduzida, coabitação e tempo prolongado de cuidado intensificam esse cenário. Intervenções educativas demonstraram impacto positivo, reduzindo significativamente a sobrecarga e ampliando a autonomia do cuidador. Embora variáveis contextuais também influenciem o desgaste, o LFS se destaca como mediador central entre tais determinantes. Conclusão: O LFS constitui um eixo estruturante para a mitigação da sobrecarga de cuidadores informais, devendo ser incorporado como prioridade em políticas públicas, programas de capacitação e práticas assistenciais, a fim de promover cuidado mais seguro, autônomo e sustentável.

Palavras-chave: Pessoa Idosa; Letramento em Saúde; Cuidadores.

Abstract

Functional health literacy as a determining factor in the burden on informal caregivers of older adults: a literature review

Introduction: The rapid aging of the Brazilian population has increased the prevalence of chronic conditions and functional dependence, intensifying the demand for informal caregivers, who generally lack technical training. In this context, Functional Health Literacy (FHL) emerges as a critical determinant for the quality of care and for modulating the burden on these caregivers, directly influencing their ability to interpret clinical information, manage therapies, and make safe decisions. Objective: We analyzed how Functional Health Literacy acts as a determining factor in the burden on informal caregivers of older adults, based on evidence available in the scientific literature. Methods: Integrative Literature Review, conducted using a structured protocol. The search was conducted in national and international databases, using previously established descriptors. After the screening process, 10 studies were selected to compose the final sample. Results: Studies show that caregivers with low LFS are more vulnerable to overload, have difficulty understanding prescriptions, feel insecure about therapeutic management, and are less adherent to self-care. Factors such as low education, low income, cohabitation, and prolonged care intensify this scenario. Educational interventions have demonstrated a positive impact, significantly reducing overload and increasing caregiver autonomy. Although contextual variables also influence burnout, LFS stands out as a central mediator among these determinants. Conclusion: LFS is a structuring axis for mitigating the burden on informal caregivers and should be incorporated as a priority in public policies, training programs, and care practices in order to promote safer, more autonomous, and sustainable care.

Keywords: Elderly; Health Literacy; Caregivers.

Resumen

La alfabetización funcional en salud como factor determinante de la sobrecarga de los cuidadores informales de personas mayores: una revisión de la literatura

Introducción: El rápido envejecimiento de la población brasileña ha aumentado la prevalencia de enfermedades crónicas y la dependencia funcional, intensificando la demanda de cuidadores informales, que generalmente carecen de formación técnica. En este contexto, la alfabetización funcional en salud (AFS) surge como un factor determinante para la calidad de la atención y para la modulación de la sobrecarga de estos cuidadores, influyendo directamente en la capacidad de interpretar información clínica, manejar terapias y tomar decisiones seguras. Objetivo: Se analizó cómo la Alfabetización Funcional en Salud actúa como factor determinante en la sobrecarga de los cuidadores informales de personas mayores, a partir de la evidencia disponible en la literatura científica. Métodos: Revisión integrativa de la literatura, realizada a partir de un protocolo estructurado. La búsqueda se realizó en bases de datos nacionales e internacionales, utilizando descriptores previamente establecidos. Tras el proceso de selección, se seleccionaron 10 estudios para componer la muestra final. Resultados: Los estudios evidencian que los cuidadores con un LFS bajo presentan una mayor vulnerabilidad al agotamiento, dificultades para comprender las prescripciones, inseguridad en el manejo terapéutico y menor adherencia al autocuidado. Factores como el bajo nivel educativo, los ingresos reducidos, la convivencia y el tiempo prolongado de cuidados intensifican este escenario. Las intervenciones educativas han demostrado tener un impacto positivo, reduciendo significativamente la sobrecarga y ampliando la autonomía del cuidador. Aunque las variables contextuales también influyen en el desgaste, el LFS destaca como mediador central entre dichos determinantes. Conclusión: El LFS constituye un eje estructurante para la mitigación de la sobrecarga de los cuidadores informales, y debe incorporarse como prioridad en las políticas públicas, los programas de capacitación y las prácticas asistenciales, con el fin de promover un cuidado más seguro, autónomo y sostenible.

Palabras-clave: Persona Mayor; Alfabetización en Salud; Cuidadores.

Introdução

O envelhecimento demográfico constitui um fenômeno de magnitude global, responsável por desencadear profundas reconfigurações nas esferas sociais, econômicas e sanitárias [1]. No contexto brasileiro, a elevação progressiva da expectativa de vida tem se correlacionado com a maior incidência de enfermidades crônicas não transmissíveis e processos degenerativos, culminando em um contingente crescente de indivíduos idosos em condição de dependência parcial ou absoluta para o desempenho das atividades de autocuidado [2].

Tal conjuntura impõe a necessidade da atuação de cuidadores, predominantemente informais, que assumem a incumbência de assegurar a continuidade existencial e a qualidade da assistência ofertada, frequentemente desprovidos de formação técnica especializada ou suporte institucional adequado [3]. O exercício do papel de cuidador informal, majoritariamente desempenhado por membros da família, é permeado por exigências de ordem física, psíquica e sociocultural [4]. A sobrecarga advinda dessa função pode comprometer simultaneamente a homeostase biopsicossocial do cuidador e a efetividade do cuidado destinado à pessoa idosa [5].

Entre os determinantes que modulam essa dinâmica, destaca-se o letramento funcional em saúde (LFS), entendido como a competência de acessar, decodificar e operacionalizar informações de natureza sanitária, possibilitando ao cuidador interpretar prescrições médicas, seguir protocolos terapêuticos e tomar decisões clínicas seguras no cotidiano da assistência [6]. Níveis deficitários de letramento funcional intensificam a vulnerabilidade, ampliam a probabilidade de iatrogenias e exacerbam a sobrecarga física e emocional [7].

A literatura evidencia que o LFS não se manifesta de forma isolada, mas interage com variáveis contextuais como nível educacional, estrato socioeconômico, tempo de dedicação ao cuidado, regime de coabitação e disponibilidade de suporte familiar [8]. Estudos recentes demonstram que cuidadores com baixo letramento funcional apresentam maior suscetibilidade a desfechos adversos, ao passo que intervenções pedagógicas e programas de capacitação estruturada podem mitigar significativamente a sobrecarga, promovendo maior autonomia e autoconfiança na execução das práticas de cuidado [9].

Essa revisão se deu pela seguinte questão norteadora: Como o letramento funcional em saúde impacta a sobrecarga de cuidadores informais de indivíduos idosos?

Analisou-se como o letramento funcional em saúde atua como fator determinante na sobrecarga de cuidadores informais de pessoas idosas, a partir de evidências disponíveis na literatura científica.

Métodos

Revisão integrativa da literatura (RIL), modalidade metodológica que se destaca por sua relevância na consolidação da prática baseada em evidências (PBE) e por sua contribuição ao avanço epistemológico no campo da saúde [10]. O processo de construção seguiu etapas sistemáticas e interdependentes: delimitação da temática e formulação da questão norteadora; definição dos critérios de inclusão e exclusão; categorização das publicações; avaliação crítica dos estudos selecionados; análise interpretativa dos achados; e síntese integrativa do conhecimento produzido.

Para assegurar rigor metodológico, o percurso de busca, seleção e análise dos artigos foi conduzido em conformidade com as recomendações do protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) [11]. A questão norteadora foi estruturada mediante a estratégia PICO, em que: P (População) corresponde aos cuidadores informais de pessoas idosas; I (Intervenção/Exposição) refere-se ao Letramento Funcional em Saúde; e Co (Outcome/Desfecho) relaciona-se à sobrecarga [12].

A busca bibliográfica foi realizada em bases de dados de reconhecida relevância nacional e internacional: Web of Science (WoS), SCOPUS, Base de Dados em Enfermagem (BDENF), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Para a seleção dos descritores, empregaram-se os vocabulários controlados Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, conforme estratégia previamente delineada no Quadro 1.

Quadro 1 - Estratégias de busca para recuperação das produções. São Paulo - SP, Brasil, 2025

Bases de dados

Estratégia

Web of Science

Health Literacy AND Caregivers AND Elderly AND Burden

SCOPUS

Health Literacy AND Informal Caregivers AND Older Adults AND Caregiver Burden

BDENF

Letramento em saúde AND Cuidadores informais AND Idosos AND Sobrecarga

LILACS

Idosos AND (Letramento em saúde OR Alfabetização em saúde) AND Cuidadores informais AND Sobrecarga

SciELO

Caregivers AND (Health Literacy OR Elderly) AND Burden

Fonte: Autores (2025).

Os critérios de inclusão compreenderam artigos originais, disponíveis integralmente em acesso aberto, publicados nos últimos cinco anos, nos idiomas português, inglês ou espanhol, e que abordassem diretamente a temática proposta. Foram excluídos: teses, dissertações, monografias, editoriais, anais de eventos, revisões, estudos duplicados e pesquisas cujo objeto não incluísse cuidadores informais como população-alvo.

A triagem e extração dos dados foram realizadas de forma independente por dois revisores, com vistas a reduzir vieses e inconsistências, não havendo necessidade de intervenção de um terceiro avaliador. Para a classificação do Nível de Evidência (NE) dos estudos, adotou-se a hierarquia proposta por Melnyk e Fineout-Overholt, que compreende: Nível I – revisões sistemáticas ou metanálises; Nível II – ensaios clínicos randomizados controlados; Nível III – estudos controlados sem randomização; Nível IV – pesquisas de caso-controle ou estudos de coorte; Nível V – revisões sistemáticas de estudos qualitativos ou descritivos; Nível VI – estudos qualitativos ou descritivos; e Nível VII – opinião de especialistas ou consenso [13].

Na etapa de análise, elaborou-se um quadro-síntese contendo informações essenciais de cada estudo selecionado, incluindo: código de identificação, autores, ano de publicação, idioma, objetivos, delineamento metodológico, principais resultados e nível de evidência. Ressalta-se que todo o processo respeitou os princípios éticos e legais, em conformidade com a Lei nº 9.610/1998, que dispõe sobre direitos autorais.

Resultados

No presente estudo foram encontrados 792 na totalidade; após a aplicação dos critérios de seleção estabelecidos previamente, reduziu-se para 137. Conseguinte, realizou-se a leitura do título e do resumo visando excluir publicações por não responderem à questão norteadora, resultando em 98 publicações. O Quadro 2 foi construído para apresentar a composição final dos artigos selecionados nas bases de dados.

Quadro 2 - Bases de dados e quantidade de artigos selecionados. São Paulo - SP, Brasil, 2025

Bases de dados

Totalidade

Após critérios

N° final

%

Web of Science

112

16

1

10

SCOPUS

94

27

1

10

BDENF

254

14

4

40

LILACS

189

18

2

20

SciELO

143

78

2

20

Total

792

153

10

100%

Fonte: Autores (2025).

Os estudos selecionados foram publicados entre os anos de 2020 e 2025. Quanto ao país de origem, verificou-se que 100% das publicações são provenientes do Brasil, com predominância de periódicos nacionais. Em relação ao delineamento metodológico, observou-se que 70% dos estudos apresentam abordagem transversal descritiva, 20% qualitativa e 10% de intervenção experimental. Após a leitura, análise e interpretação dos estudos, 10 artigos foram selecionados, conforme detalhado na Figura 1.

Figura 1 - Fluxograma de seleção dos estudos, adaptado da recomendação PRISMA. São Paulo - SP, Brasil, 2025

Fonte: Adaptado de The PRISMA 2020.

Dentre os estudos analisados, as pesquisas foram conduzidas em diferentes regiões do Brasil e em variados contextos de cuidado, como hospitalar, domiciliar e comunitário. Quanto ao idioma, verificou-se que todos os artigos foram publicados em português. O Quadro 3 foi construído para apresentar a síntese dos estudos incluídos na revisão.

Quadro 3 - Caracterização dos estudos analisados na revisão. São Paulo - SP, Brasil, 2025

Autores

Ano / Idioma

Título

Tipo de
Estudo

Resultados
Principais

Nível de Evidência

1

Oliveira LF et al.

2025 / PT

Impacto da capacitação de cuidadores informais de idosos dependentes na assistência e sobrecarga

Intervenção experimental

Redução da sobrecarga grave de 32,35% para 1,47%; melhora na compreensão das doenças, segurança no cuidado e qualidade da assistência [14].

III

2

Souza et al.

2024 / PT

Cuidadores hipertensos de pessoas idosas, adesão ao tratamento medicamentoso e letramento em saúde

Transversal

36,8% com baixa adesão; baixo letramento em saúde; mais horas de cuidado: maior sobrecarga [15].

IV

3

Tales et al.

2023 / PT

Condições de saúde e sobrecarga de trabalho entre cuidadores informais de pessoas idosas com síndromes demenciais.

Transversal

32,8% com sobrecarga; fatores: idade, vínculo familiar, percepção negativa de saúde, uso de medicamentos, ausência de autocuidado [16].

IV

4

Silva et al.

2022 / PT

Sobrecarga e sintomas psicológicos em cuidadores durante a pandemia da COVID-19

Transversal

Sobrecarga associada à idade e coabitação; ansiedade e depressão mais intensas em cuidadores que conviviam com o idoso [17].

IV

5

Arruda et al.

2022 / PT

Correlação da funcionalidade familiar e sobrecarga de cuidadores informais de idosos hospitalizados

Transversal

59,8% com boa funcionalidade familiar; 49,5% com sobrecarga leve a moderada; correlação negativa entre sobrecarga e funcionalidade [18].

IV

6

Soares et al.

2021 / PT

Letramento em saúde de cuidadores domiciliares de uma capital brasileira

Transversal

Limitações em “cuidado ativo” e “navegar no sistema de saúde”; influências negativas: baixa escolaridade, renda baixa, vínculo informal [19].

IV

7

Aires et al.

2020 / PT

Cuidadores informais de idosos dependentes na comunidade em municípios de pequeno porte

Transversal

Predomínio de cuidadoras mulheres, filhas e casadas; maior sobrecarga em baixa escolaridade, coabitação e tempo elevado de cuidado [20].

IV

8

Felipe et al.

2020 / PT

Ansiedade e depressão em cuidadores informais de idosos dependentes: um estudo analítico

Transversal

18,4% com sintomas de depressão; 14% com ansiedade moderada a severa; associação com comorbidades e percepção negativa da saúde [21].

IV

9

Felipe et al.

2020 / PT

Qualidade de vida e sobrecarga de cuidadores de idosos

Transversal

Sobrecarga leve a moderada; pior qualidade de vida nos domínios saúde geral, vitalidade e aspectos sociais [22].

IV

10

Queiroz et al.

2020 / PT

Alfabetização em saúde de cuidadores informais do idoso com doença de Alzheimer.

Qualitativo

Predomínio dos níveis funcional e conceitual; baixo empoderamento crítico; dúvidas sobre evolução da doença e administração de medicamentos [23].

VI

Fonte: Autores (2025).

Discussão

A literatura científica analisada demonstra que o LFS é um fator determinante na sobrecarga de cuidadores informais de pessoas idosas. Evidências indicam que a sobrecarga, presente em aproximadamente um terço dos cuidadores de idosos com demência, está fortemente associada a tarefas que demandam compreensão de informações médicas, como a administração de medicamentos e a ausência de práticas de autocuidado [16]. Tais achados reforçam que o nível de letramento funcional em saúde influencia diretamente a capacidade do cuidador de manejar as exigências do cuidado, configurando-se como elemento central para compreender o peso que recai sobre esses indivíduos [6].

O primeiro conjunto de evidências indica que, entre cuidadores de pessoas com Alzheimer, embora exista domínio funcional e conceitual, o baixo nível de empoderamento crítico limita a autonomia e intensifica a insegurança, demonstrando que o LFS restrito à compreensão básica não é suficiente para mitigar a sobrecarga [23]. Torna-se necessário que os cuidadores avancem para níveis mais elevados de letramento, capazes de subsidiar decisões seguras e independentes, reduzindo o estresse e a sensação de incapacidade diante das demandas complexas do cuidado [7].

Estudos também apontam limitações significativas em “cuidado ativo” e na habilidade de “navegar no sistema de saúde”, sobretudo entre cuidadores com baixa escolaridade e renda, o que amplia o peso emocional e físico do cuidado e dificulta o acesso e a interpretação de informações clínicas [19]. Dessa forma, o baixo LFS compromete não apenas a qualidade da assistência prestada ao idoso, mas também intensifica a vulnerabilidade psicológica e social do cuidador, reforçando sua exposição a situações de desgaste contínuo [9].

Adicionalmente, verificou-se que cuidadores hipertensos apresentam baixa adesão ao tratamento medicamentoso associada a menor LFS e maior sobrecarga, evidenciando que déficits nessa competência afetam simultaneamente o cuidado à pessoa idosa e o autocuidado do próprio cuidador [15]. Dessa forma, tal habilidade cognitiva e operacional configura-se como um determinante duplo, influenciando tanto a qualidade do cuidado ofertado quanto a saúde global do cuidador, ampliando a compreensão de sua relevância no contexto do cuidado informal [6].

Além disso, evidências apontam que a sobrecarga é mais acentuada entre cuidadores com baixa escolaridade, renda reduzida e ausência de hábitos de leitura, características que se mostram fortemente associadas ao nível de LFS [16,14]. Esses determinantes sociais e educacionais influenciam diretamente a capacidade de compreender, interpretar e aplicar informações de saúde, indicando que a sobrecarga não pode ser dissociada das condições estruturais que moldam o acesso ao conhecimento e a autonomia no cuidado. Dessa forma, o letramento emerge como mediador crítico entre desigualdades sociais e o peso do cuidado, modulando a vulnerabilidade e a eficácia das práticas assistenciais [8].

Por outro lado, algumas evidências discordam parcialmente da centralidade atribuída ao LFS, indicando que, durante a pandemia da COVID 19, fatores como isolamento social, tempo prolongado de cuidado e convivência contínua com o idoso exerceram influência mais significativa sobre o aumento de ansiedade e depressão do que o nível de letramento [17]. Nesse cenário, o estressor sistêmico imposto pela pandemia se sobrepôs às dificuldades de compreensão das informações de saúde, demonstrando que o letramento, embora relevante, não constitui o único determinante da sobrecarga [9].

Em contextos de municípios de pequeno porte, verificou-se que a ausência de rede de apoio formal e a sobrecarga feminina configuram elementos estruturais que independem diretamente da alfabetização em saúde, sendo o peso do cuidado mais fortemente associado às condições sociais e à insuficiência de suporte institucional do que ao nível de LFS [20]. Ainda assim, reconhece-se que tais fatores podem interagir, ampliando a vulnerabilidade dos cuidadores em cenários marcados por baixa escolaridade e recursos limitados [7].

Adicionalmente, observou-se que sintomas de ansiedade e depressão entre cuidadores apresentam maior associação com comorbidades, uso de medicamentos e percepção negativa da própria saúde do que com o nível de LFS [21]. Esses achados sugerem que o LFS não deve ser analisado de forma isolada, mas integrado a um conjunto mais amplo de determinantes relacionados à saúde física e mental do cuidador. Contudo, níveis reduzidos de letramento podem agravar tais condições ao dificultar o acesso a informações qualificadas e estratégias eficazes de enfrentamento [9].

Apesar dessas ressalvas, o consenso predominante entre os estudos indica que o LFS atua como mediador crítico da sobrecarga, uma vez que, quando insuficiente, potencializa os efeitos de outros fatores de risco, como baixa escolaridade, tempo prolongado de cuidado e coabitação [16,23,19,22]. Por outro lado, quando fortalecido, o LFS reduz erros, inseguranças e desgaste, funcionando como um amortecedor da sobrecarga e promovendo maior qualidade de vida ao cuidador. As evidências reforçam, portanto, a necessidade de políticas públicas e estratégias assistenciais orientadas ao fortalecimento sistemático do letramento em saúde [8].

Em síntese, estudos convergem ao reconhecer o Letramento Funcional em Saúde como um determinante relevante da sobrecarga de cuidadores informais [16,23,19,22,14], enquanto outras investigações relativizam sua centralidade, destacando a influência de variáveis contextuais, como isolamento social, funcionalidade familiar, tempo de cuidado e suporte institucional [17,18,20,21]. Assim, o LFS deve ser compreendido como parte de um conjunto de determinantes interdependentes que moldam a experiência do cuidado, configurando-se como eixo estratégico voltado à mitigação da sobrecarga e à promoção da qualidade de vida dos cuidadores [6].

Uma limitação substancial deste estudo reside na restrição geográfica e epistemológica do corpus analisado, composto exclusivamente por estudos conduzidos no território brasileiro. Tal delimitação reduz a heterogeneidade sociocultural, organizacional e sanitária das evidências, comprometendo a transferibilidade e a validade externa dos achados para contextos internacionais dotados de arranjos assistenciais, políticas públicas e modelos de cuidado substancialmente distintos. Ademais, a predominância de delineamentos transversais e descritivos, com reduzida presença de estudos experimentais ou longitudinais, limita a capacidade inferencial acerca de relações causais entre o LFS e a sobrecarga dos cuidadores, restringindo a robustez das conclusões.

Os achados deste estudo oferecem uma contribuição significativa para a prática ao evidenciar que o LFS se configura como um determinante estratégico e transversal na modulação da sobrecarga dos cuidadores informais, demandando sua incorporação sistemática como eixo estruturante das intervenções em saúde. A implementação de ações interprofissionais voltadas ao fortalecimento do LFS pode mitigar iatrogenias, reduzir inseguranças decisórias, aprimorar o manejo terapêutico e favorecer a autonomia do cuidador, repercutindo diretamente na qualidade do cuidado ofertado e na diminuição do desgaste biopsicossocial associado ao exercício do cuidado informal.

Conclusão

Diante do exposto, evidenciou-se que o LFS constitui um determinante central e transversal na modulação da sobrecarga de cuidadores informais de pessoas idosas, atuando como elemento mediador entre as demandas crescentes do cuidado, as desigualdades socioculturais e a complexidade dos regimes terapêuticos contemporâneos. Assim, reforça-se a necessidade de políticas públicas e intervenções educativas que incorporem o fortalecimento do LFS como eixo prioritário, de modo a mitigar a sobrecarga, aprimorar a qualidade assistencial e assegurar condições mais equânimes e dignas para o exercício do cuidado informal no contexto do envelhecimento populacional brasileiro.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

Fontes de financiamento

Financiamento próprio.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Barbosa IEB, Mota BS; Coleta de dados: Barbosa IEB, Mota BS, Silva LMF, Scariot EHS, Silva HS; Análise e interpretação dos dados: Barbosa IEB, Mota BS, Casatti FB, Rocha CO; Redação do manuscrito: Barbosa IEB, Silva LMF, Scariot EHS, Ladeia KM; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Barbosa IEB, Mota BS, Casatti FB, Rocha CO, Ladeia KM.

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